coluna lorena

Es-colher

Por Lorena Bitar

Lançar-se a novos caminhos constitui algo importante para o dinamismo da vida. São grandes oportunidades de experimentar, aprender, evoluir, crescer. Mas é também nesse movimento que nos vemos convocados à difícil tarefa de reposicionar-se e definir não só os espaços que ainda poderão ser ocupados, mais quais precisarão ser renunciados. 

Ajustes nem sempre fáceis quando temos que deixar pra trás algo que gostamos, mas necessários para que possamos investir nas novas direções. 

Foi neste movimento de reposicionamento, que me vi convocada a repensar a minha posição como colunista fixa do Escutatório,  quando a mudança para um outro país sob o desafio de ocupar uma nova oportunidade de trabalho, fez-me entrar em contato com meus limites de tempo e disponibilidade. Diante disto, entendi que chegara o momento de concluir minha trajetória aqui no site.

Apesar de curta, foi uma importante e intensa passagem, impulsionadapelo desejo de compartilhar, aprender e construir sobre a Psicanálise. Um trabalho lindo, composto por pessoas apaixonadas pelo que fazem e comprometidas com o que fazem. 

Mas o momento de reconhecer os limites é fundamental. A mistura de emoções é inevitável, já que me afasto de algo que tanto gosto, mas me despeço com alegria de ter feito parte de um time muito querido e com a convicção de ter colhido lindos frutos que caminharão comigo pelos novos caminhos. 

 

Sobre a travessia do adolescer

Por Lorena Bitar

 

De um lado, um pai assustado com o filho que começa a desobedecê-lo, dar “respostas tortas” e não se interessar mais pelos programas da família;

De outro, uma mãe preocupada com as novas amizades da filha, que se deixa influenciar pelo o que os outros querem e não demonstra maturidade para se virar sozinha;

De outro, um pai incomodado com a falta de responsabilidade que a filha vem demonstrando ao tirar notas baixas e não respeitar os limites impostos pela família.

O que existe em comum nesses relatos? 

Poderia dizer que trata-se de pais queixando-se dos filhos, e filhos tendo maus comportamentos com pais. Poderia também contar que ambos os filhos passam pela fase da adolescência, ou pela temida “aborrescência” como é nomeada por alguns. Isso talvez poderia explicar alguma coisa, já que pelas lentes da “aborrescência”, o que fica em evidência são jovens rebeldes, que questionam as normas e aborrecem-se contra seus pais.  

 Mas prefiro não parar por aí. 

Pelas lentes da psicanálise podemos ver quão trabalhosa e dolorosa esta passagem pela adolescência pode ser. Minha experiência em um Núcleo de atendimento à adolescentes e jovens, e mais especificamente como analista de um grupo terapêutico de pais de adolescentes e jovens adultos, me permitiu acompanhar de perto essa travessia que afeta pais e filhos, e que muitas vezes é mal compreendida, pois entra em jogo uma complexa rede de terrenos desconhecidos, ideais desconstruídos, conflitos velados, e dores e perdas mal explicadas.

O adolescer envolve uma série de transformações que convoca o adolescente à desligar-se da infância e preparar-se para a vida adulta. Para reorganizar-se subjetivamente em um novo lugar - o de adulto - , é necessário que o adolescente vivencie um luto pelas perdas do momento anterior da infância e assim diferenciar-se dos pais. Neste tempo, perde-se o corpo, perde-se o lugar supostamente protegido e perde-se os pais idealizados da infância. 

É um processo doloroso e conflituoso de renúncia dos objetos de amor, que evidencia para o sujeito que para crescer, é preciso tolerar perder. 

Para os pais, também é uma experiência dolorosa ter que lidar com a perda do lugar idealizado “daquele que tudo sabe sobre o filho”. Esse lugar de saber, que na primeira infância foi imprescindível para educar e cuidar do filho, agora passa a ser questionado. 

É quando as divergências e as agressividades acentuam-se, e o estranhamento em relação àquele que até então “fazia parte de mim” começa a aparecer, produzindo muitas vezes um sentimento de frustração e falta de reconhecimento. Mas o que muitas vezes não é reconhecido neste processo, é que os filhos na tentativa de diferenciar-se simbolicamente dos pais, acabam distanciando-se fisicamente, tendo atitudes que destoam ou até opostas daquelas já familiares ou esperadas. 

“Colocar-se do contra” por exemplo, pode ser uma tentativa de experimentar um lugar diferente dos pais e encontrar jeitos mais próprios de ser. 

Questionar o valor de um pai, ou demonstrar mais interesse em um amigo, pode expressar uma forma de desconstruir o lugar poderoso e idealizado dos pais da infância.

A rebeldia, muito associada no senso comum à adolescência, pode significar uma forma do adolescente não conformar-se com o caminho escolhido pelos pais. São descompassos e mal entendidos, que vem carregados de mal estar, e que fazem parte do processo de experimentação que ajudarão o adolescente a elaborar o seu conflito e caminhar na busca de novas identidades. 

Relembro uma fala de José Saramago citada por um pai do grupo mencionado acima. A fala dizia: 

"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. 

Perder? Como? 

Não é nosso, recordam-se? 

Foi apenas um empréstimo".

A adolescência é um tempo fundamental e estruturante do sujeito, que exige uma mudança de lugar tanto para os filhos quanto para os pais. Ressalto que mudar de lugar, não significa abandonar ou largar de mão. Trata-se em sua essência de um processo psíquico e simbólico de suportar sair do lugar ideal e onipotente daquele que tem domínio sobre o filho e permitir que este possa ir em busca de sua própria forma de ser e existir, mesmo que isso implique erros, tropeços e caminhos diferentes. 

 

Brincar, para quê?

Por Lorena bitar

 

“Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz.”

Chico Buarque

   

   A infância está permeada por vários olhares. Para alguns é a época da inocência, pra outros a época nostálgica do “eu era feliz e não sabia”, pra outros é associada à total ausência de preocupações, onde o que importa é só a alegria e a brincadeira. 

   De fato, uma criança ainda está aprendendo como funciona o mundo. Os atos não tem o mesmo peso, e podem experimentar um pouco da vida adulta – por meio da brincadeira – sem sofrer as mesmas consequências, afinal estão brincando. E brincam não apenas para se divertir, mas para experienciar um pouco mais do mundo à sua volta. 

   O brincar é peça fundamental na vida de uma criança; ele contribui para a aprendizagem, a criatividade, a exploração, a interação. Mas para além disto, o brincar é parte do processo de constituição psíquica de um sujeito.  

Explico!

    As crianças, por não possuírem todo o aparato simbólico da palavra – já que estão em desenvolvimento – utilizam o brinquedo como suporte imaginário para expressar seu mundo interno, seus conflitos e seus desejos. Disso depreendemos que o brinquedo opera como ponte para o ato simbólico do brincar, na medida em que permite que os conteúdos internos da criança se tornem palpáveis em coisas do mundo real, como uma espécie de materialidade imaginária. 

    É por meio da brincadeira também, que as crianças experimentam outras posições, podendo sair de uma posição de passividade, e se colocar ativamente na cena. As vezes vemos crianças que são submetidas à algum tipo de violência ou agressão, e na brincadeira se posicionam como aqueles que mandam ou agridem, como uma tentativa de dominar a situação, mas também de criar e produzir novos sentidos a partir dessa experimentação. 

   Freud em seu texto Escritores Criativos e Devaneios (1908 [1907]), comparou o brincar da criança com a atividade criativa do escritor. Ele nos conta que ambos criam seu mundo próprio, investem grandes quantidades de emoções em suas criações e ajustam-no para um jeito que lhes fique mais prazeroso. Mas acrescenta, que apesar da energia investida e da seriedade com que o fazem, ambos reconhecem que o mundo da criação é diferente da realidade, sendo isto que distingue o brincar do fantasiar.

   Esse universo da criação aparece muito bem retratado no documentário fruto de um lindo projeto de pesquisa chamado Território do Brincar, idealizado por Renata Meireles e David Reeks, com co-realização do instituto Alana e participação de algumas escolas parceiras. 

   Nele, o brincar é capturado em sua espontaneidade, com materiais pouco estruturados, permitindo que a criança se apresente a partir dela mesma e da exploração daquilo que há ao seu redor. A ideia central do projeto é de olhar para a brincadeira por si só, sem conteúdos amarrados ou propostas sugeridas, com a função de permitir à criança interagir, experimentar, imaginar e explorar o mundo que a cerca. 

   Na medida em que constroem brinquedos, imaginam as cenas, criam estórias, transformam panelas em tambores, garrafas em barcos, madeiras em móveis, os pequenos encenam, articulam, projetam e elaboram os acontecimentos da sua vida.

  Mais ainda, quando brincam e criam, reproduzem em ato aquilo que lhes falta e desejam alcançar – o desejo de ser grande e os ideais que tem de si - e neste tempo, presente, futuro e imaginação se misturam. 

   As brincadeiras de faz-de-conta, de ser adulto ou de personagens mágicos e super-heróicos, colocam em cena, por um lado, aquilo que é da ordem do impossível de alcançar, e por outro, criam lugares possíveis para a criança se posicionar no mundo. 

   E acredito que aí reside a riqueza do projeto, onde desconstrói a banalização do brincar, e legitima-se seu estatuto de formador da infância. Onde a criança, ao criar, se recria. 

 

 

Referências

FREUD, SIGMUND. (1908[1907]) Escritores criativos e devaneios. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Ed. Standard Brasileira, vol.IX Rio de Janeiro, Imago. 1976.

 

E agora, onde vou me amparar?

Texto por Lorena Bitar

 Estamos vivendo um tempo em que entristecer confunde-se com deprimir. Que estar sozinho é sofrer de solidão. Que enlutar-se é perder tempo. Que sustentar incertezas é gerador de angústias. Que encontrar respostas é mais importante que qualquer pergunta.

       Nesse tempo, em que muitas vezes calar a dor é mais urgente que ouvi-la, relembro uma frase da psicanalista Denise Maurano que diz: "não podemos nos curar da ferida de sermos humanos”. Nela, a psicanalista se refere a uma marca que aponta para algo que dói mas que também nos torna humano. 

         E afinal, do que se trata essa ferida?

       Nossa vinda ao mundo, não é sem dor. Quando nascemos e nos separamos do corpo materno, carregamos conosco a dor originária e insuperável desta primeira separação. Junto a isto, viemos em um estado de fragilidade biológica e psicomotora, que nos coloca em uma posição de dependência absoluta aos cuidados de um outro, em geral a mãe ou alguém que exerça a função materna. Este outro, ao se ocupar das necessidades fisiológicas e afetivas, opera como um guardião da integridade física e psíquica do bebê, e representa aquele capaz de garantir amor, amparo e proteção. 

     Mas desde os primórdios da vida, vivenciamos um mal-estar frente às situações de vulnerabilidades que é estrutural e elementar. 

        Desta forma, tem algo que a figura materna não é capaz de garantir. E isto não se dá por uma falha ou incompetência, mas por algo que escapa à própria mãe; ela também possui em sua constituição a mesma marca de fragilidade que a faz humana e por isto não está sob seu alcance suprir todo o mal-estar de seu filho. Além disto, a linguagem, que permite à mãe simbolizar o mundo para a criança, também carrega consigo a marca de uma incompletude, já que não consegue oferecer respostas absolutas e definitivas para todas as diversas dimensões da ordem humana. Em última instância, sempre haverá algo impossível de ser dito.

      Sendo assim, estamos diante de um dado inexorável da nossa existência: viemos ao mundo em uma condição de desamparo estrutural e é ao redor deste desamparo que nos constituimos. É por estarmos desamparados, que nos vinculamos à alguém, nos inserimos no laço social, permitindo o mergulho na ordem humana, no mundo e na cultura.

    Na vida adulta, o homem permanece deparando-se com situações de vulnerabilidades, incertezas, e faltas de garantias que evidenciam seu estado de desamparo. Em alguns casos, diante de situações geradoras de angústia ou de sentimentos de desproteção, nos transportarmos inconscientemente ao nosso estado infantil primordial de impotência onde encontramos uma suposta proteção nos braços de alguém. 

    Por vezes, as figuras idealizadas, deuses, ou líderes, surgem como uma saída que exime o sujeito, ilusoriamente, de confrontar-se com seu desamparo, como se um ser superior e protetor, ao cuidar, pudesse dar-lhe a certeza de estar protegido e livre de todos males. 

     O que precisamos compreender é que a marca do desamparo (e da falta de garantias a que todos estamos submetidos) não é algo que podemos superar, mas que precisamos nos apropriar. E apropriar-se implica reconhecer que somos portadores de uma falta fundamental, que nos faz incompletos por essência.

     Sob essa ótica, a psicanálise legitima o que há de fundamental em nossa constituição e abre espaço para o sujeito se situar frente sua fragilidade e, assim, possibilitar a criação de novos sentidos para sua vida a partir do reconhecimento de que não dependemos de um outro para cuidar do nosso próprio desamparo.  

      Isso pode ser libertador!