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A escrita e seus efeitos

"Na cura analítica, a gente tenta apreender, para além da prosa, as palavras que são verdadeiramente as do sujeito, as palavras que o constituíram e eu chamo de 'o poema de cada um'. E, quando o sujeito encontra esse poema, ele pode dar continuidade ao mesmo. O que nós temos de melhor são as palavras do poema que nos criou (...)" (Fragmento da entrevista de Alain Didier-Weill a Betty Milan)

Tenho interesse em escrever sobre a escrita, pois é uma experiência que me capturou desde muito cedo. Na mais tenra idade, minha mãe, uma apaixonada pela leitura, me apresentou aos mais diversos tipos de escrita: dos livros infantis, às aventuras de Sidney Sheldon e obras literárias brasileiras em coleções clássicas de Machado de Assis, Aluízio Azevedo, Lima Barreto, Eça de Queiroz, Joaquim Manual de Macedo, dentre tantos! Esses últimos eram livros belíssimos, a começar pelas capas caprichosas, com letras em relevo e que convidavam à leitura. 

Talvez, a partir desta experiência tão marcante com a leitura, fui capturada pela escrita. Sempre me envolveu o processo de criação das histórias, as ricas descrições e a escolha de palavras. Com certa idade decidi que seria escritora. Não me tornei a escritora de minha fantasia, cultivada na infância, mas não me deixo afastar completamente dela.

Mas, o que seria um escritor? Freud, no texto “O escritor e a fantasia” (1908), o equipara a uma criança quando brinca: “constrói um mundo de fantasias que leva bastante a sério, ou seja, dota de grandes montantes de afeto, ao mesmo tempo que o separa claramente da realidade” (p. 327). O escritor é aquele que, nas entrelinhas do seu texto, faz a travessia do imaginário pro simbólico, inscreve sua subjetividade e seu desejo. Ainda que a produção não seja um obra original, o sujeito comparece na escolha do material e nos “grifos nossos” que sinalizam suas marcas no texto.

Como nos apontou Freud, o processo da escrita enquanto registro gráfico e sua condição de endereçamento mobiliza "montantes de afeto". A partir dessa afetação, me vem o mal-estar vivenciado por alguns, e me incluo nesses, ao tentar iniciar a escrita de um texto. Aquela sensação de não encontrar as palavras para começar, delimitar um tema ou mesmo colocar um ponto final. Esse mal-estar representado pela angústia, traz a dimensão da rememoração para o escritor, enquanto sujeito: a construção de um texto implica em escolher e comunicar uma coisa e não outra; há um confronto com uma perda inerente à escolha de palavras, de ideias e com a falta estrutural de não dar conta de (dizer) tudo. Há um confronto com a própria castração*, com sua divisão psíquica,  incompletude e submissão às leis da linguagem.

A escrita enquanto costura simbólica, situa-se, portanto, enquanto operação psíquica submetida ao sujeito faltoso que escreve, faz barra ao imaginário e aponta para a impossibilidade do todo. Pode-se pensar, então, que em um texto há um não-dito; há um dito não-todo. Sustentar uma escrita não se dá sem um efeito psíquico. Eis que, ali no papel, também há subjetividade e escuta.

Em alguns contextos, a escrita não cabe em primeira pessoa. Prefere-se que o sujeito seja oculto, implícito, indeterminado ou sem sujeito. Há um apagamento subjetivo de quem escreve. Para a teoria psicanalítica, o sujeito é e-feito da linguagem, então como produzi-la de forma escrita desconsiderando o próprio sujeito? Subvertendo essa lógica, a Psicanálise convoca o sujeito a se manifestar nas mais diversas formas de linguagem e a escrita é uma delas. Se deparar com o “não-saber” todo, com a convocação de falar em nome próprio e se implicar com o "não-dizer" tudo são efeitos produzidos no sujeito a partir da escrita. Então, o que se produz quando se escreve um texto? Produz-se e-feitos e a Psicanálise é um deles.

O mecanismo da escrita testemunhou a invenção da própria Psicanálise, registrada nas correspondências trocadas entre Freud e Wilhelm Fliess entre os anos de 1887 a 1904, e o seguimento de seu percurso a partir dos "Os Escritos" (1998) e "Outros Escritos" (2003), registros de Lacan. Porém, a questão da escrita para Psicanálise não está apenas enquanto formato de comunicação e transmissão da teoria, mas no fato de pensar a escrita enquanto meio de presentificação do sujeito, sua implicação com seu desejo, suas construções particulares e seus efeitos.

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* O complexo de castração, o qual todos os sujeitos (neuróticos) estão submetidos, é um conceito, inicialmente, proposto por Freud em “Sobre as teorias sexuais das crianças" (1908) e relido por Lacan ao longo de sua obra enquanto importante operação para inserção do sujeito na linguagem, na lei e na cultura.

Sobre a formação do analista


Por Maiara Marques


“A psicanálise se transmite de duas maneiras, em dois lugares diferentes: de um lado, na experiência dessa prática que é a relação entre um analista e um analisando; de outro, em sua presença na vida pública segundo estas três modalidades: a teoria, as instituições ditas psicanalíticas e as relações que os psicanalistas mantêm com a sociedade civil em que vivem. Um dentro e um fora”.

Philippe Julien

Escolho compartilhar com vocês, em meu primeiro texto da coluna, a reflexão que faço e, pela qual sou afetada, sobre a formação do psicanalista. O tema me desperta interesse, pois estou enviesada por esse percurso de formação.

Uma das coisas que sou mais questionada quando menciono que faço formação em Psicanálise é como funciona e quanto tempo dura essa formação. Geralmente começo expondo que esta é proposta por Freud (1919) enquanto tripé: análise pessoal, estudo da teoria psicanalítica e supervisão da clínica do analista em formação, sob a orientação dos psicanalistas mais reconhecidos. Continuo explicando que o tempo dessa formação é permanente, e que o processo de se autorizar analista obedece a um tempo subjetivo e que passa, como nos orienta Freud em “A questão da análise leiga” (1926), pela análise pessoal e não só pela teoria.

Apresento ainda que Lacan, na Proposição de 9 de julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola, traz o pensamento que “o analista se autoriza por si mesmo e por alguns outros”. Esse processo também é amparado por uma instituiçãode formação, dispositivo onde um saber não-todo é compartilhado e onde se dá a transmissão de Psicanálise. Quase que imediatamente noto a expressão de estranhamento e inquietação em quem me ouve. Observo que a proposta da Psicanálise vai de encontro aos ditames sociais de obediência ao tempo e à necessidade imediatista de titulação. A formação é subversiva, marcada não por regras regulamentadoras, mas por uma ética própria da Psicanálise, a ética da escuta ao sujeito do inconsciente.

Para pensar a formação do analista recorri a algumas leituras, dentre elas: “A questão da análise leiga” (1926), “Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades?” (1919), “Análise terminável e interminável” (1937) e às contribuições de outros colegas psicanalistas na obra “Lacan e a formação do psicanalista” (2006). A partir dessas, fui instigada a pensar a formação do analista a partir da ética psicanalítica e não de uma regulamentação, bem como que a formação não está relacionada ao ensino nas universidades, cursos de especialização ou mestrados.

Em “Ofício do psicanalista: formação vs. Regulamentação” Albertini (2009) conduz um levantamento histórico e uma discussão acerca das diversas tentativas de regulamentação da prática psicanalítica, assim como as divergências entre as escolas e instituições de formação. Observo que nem a própria Psicanálise fugiu de suas teorizações: ela não é do lugar das certezas e nos convoca a discussões permanentes sobre “como se forma um analista”.

Atualmente, algumas correntes da Psicanálise tem pensado a formação do analista por outras vias, a partir da teorização lacaniana, apontando para a articulação da clínica, escrita e da transmissão. Como possibilidade de aprofundamento dessa outra proposta de formação aponto a leitura do recém lançado livro "O psicanalista: na instituição, na clínica, no laço social, na arte - volume 2” organizado pela Michele Roman Faria.

As reflexões me conduzem a pensar que a escuta para a qual o analista se prepara é a escuta da singularidade do sujeito e por não se submeter a critérios regulamentadores (como diplomas, conselhos ou registros de classe) não implica significar que não haja rigor em sua prática. Há rigor no processo de formação do analista, atendendo ao compromisso ético com a palavra a ser trabalhada em associação livre e ao tripé da formação, assim como no compromisso de que esta formação seja permanente, não podendo esta estar dissociada dos processos socioculturais aos quais o analista está submetido.

Pensar a formação do analista a partir da ética da Psicanálise é assumir um compromisso com o “não-saber” como possibilidade de se produzir um saber, dando lugar à subjetividade e emergência do saber inconsciente. Novamente a formação do analista assume seu papel subversivo transitando nos discursos* enquanto transmissão e efeitos de formação.

Reflito também que o desafio de escrever e a proposta de transmitir a Psicanálise também fazem efeitos de formação. Se autorizar falar em nome próprio, criando sua própria articulação significante e a implicação com os efeitos que a palavra produz não teria um viés analítico?

Por fim, noto a importância de todo esse percurso, sobretudo ao destaque dado por Freud e Lacan à análise pessoal na formação. É na análise pessoal, no um a um que há transmissão da Psicanálise e nessa experiência singular se vê a possibilidade de produção de um psicanalista.

*Nota: articulação trazida por Lacan no Seminário 17 “O avesso da Psicanálise”, onde este nos apresenta as formas de laço social entre os sujeitos a partir da definição de quatro discursos: do mestre, universitário, da histérica e do analista. Os laços sociais são construídos e estruturados pela linguagem e, em Lacan, são articulados enquanto discursos. Lacan nesse seminário também nos convida pensar a experiência analítica como experiência de discurso.

Referências:

ALBERTI, S.; LOPES, A.; LANNES, E.; ROCHA, E.; AMENDOEIRA, W. (org). Ofício do psicanalista: formação vs. Regulamentação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

FREUD, S. (1919). Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades? (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 14, 1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

_________ (1926). A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 17, 1926-1929). São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

_________ (1937). Análise terminável e interminável. (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 19, 1937-1939). São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

JORGE, M. A. C. (org). Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006.

LACAN, J. (1967) Proposição de 9 de julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2003.