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Unheimlich urbano: Psicanálise, Arquitetura e Políticas | Por Mariana Anconi

O espaço urbano como território em constante mudança é feito corpo vivo: pulsional e precisa da linguagem para não ser tomado pelo caos. Essa linguagem articulada às políticas públicas e o que se faz dos espaços, vão dando contornos, limites e produzindo outros espaços no “entre" construções. 

A produção de outros espaços pode fugir à regra, ao planejamento inicialmente projetado para aquele território. Lefebvre (1991) afirma que os cidadãos produzem espaços, inventam lugares e, consequentemente constroem uma arquitetura. Esta arquitetura construída, nos espaços produzidos pelos habitantes gera descontinuidade e um furo na lógica, por exemplo, dos espaços ditos produtivos. 

A arquitetura configura-se como linguagem na cidade, uma espécie de materialização do inconsciente. Uma cidade não é feita apenas do que a arquitetura representa, mas dos espaços que as pessoas inventam a partir desta arquitetura. Esse é o aspecto de corpo que uma cidade adquire, e como corpo, podemos considerar a existência de um "psiquismo da cidade".

A experiência do unheimlich na cidade surge do encontro com o outro estranho e ao mesmo tempo familiar. O outro nos impõe a dialética dos contrastes, das rupturas e com a política dos laços. Uma política que não escapa ao estranhamento. Trabalhei neste texto com a perspectiva do unheimlich como efeito da produção de outros espaços na cidade. Espaços estes que furam discursos, lógicas e ideais.

A palavra unheimlich (em alemão) ganhou estatuto de conceito em Freud no texto Das Unheimliche (1919) traduzido como L’enquietant (em francês) e O estranho (em português) e, mais recendente, O infamiliar (2019). Freud aponta que o estranho é tudo aquilo que, devendo permanecer oculto, acabou se manifestando. Portanto, afirma: “esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo de repressão” (FREUD, 1970, p.301). 

No contexto urbano, o que faz com que uma cidade passe de um espaço familiar para infamiliar/estranho (unheimlich)? 

Primeiro, deve-se considerar que as cidades são espaços dentro de outros espaços, mas não só. São constituídas por cultura, história, memória e trauma. São marcadas por corpos que transitam e expressam sua subjetividade. Os muros (como limites de territórios e lugar de expressão) são exemplos do que é possível escrever (e dizer) do mal-estar na cidade. É importante que haja espaço para uma expressividade do nível do mal-estar.

O unheimlich urbano é o que surge nas rachaduras na cidade quando se tenta operar com ideais incompatíveis e, por vezes, perversos. Mais ainda, é o que retorna do inconsciente e causa estranheza, mas que diz de um movimento dos próprios habitantes. É a negação de uma parte do próprio território. É o que se alega ser do estrangeiro (do outro), mas é do mais íntimo em nós.

A experiência do unheimlich pode ser vivenciada a partir do encontro com a diferença entre territórios na cidade. Cito aqui dois espaços possíveis: os espaços públicos (parques, praças, etc) e os terrenos vagos sem a marca da "produtividade".

Na cidade, os espaços públicos como parques, praças, bibliotecas apresentam uma topologia  que permite o deslocamento dos corpos. Esta mesma topologia, que transmite a ideia de uma continuidade entre cidade e os corpos, permite encontros com o radical da diferença, encontros com o estranho, mas que também é familiar.

As cidades passam por transformações o tempo todo. De acordo com Lefebvre (1991) elas são consequência das relações entre os habitantes, ou mais especificamente o produto das relações sociais. No meio destas transformações sócio-econômicas e culturais vemos discursos que produzem o estrangeiro em seu próprio território, por isso, os espaços públicos possibilitam a construção de lugares democráticos e de expressão de sua subjetividade. O encontro com a diferença possibilita a diminuição das fronteiras e os muros entre habitantes e diminuem o desamparo discursivo no campo social daqueles ditos “estrangeiros”.

Os espaços abandonados e esquecidos (vagos) sem a marca da produtividade do discurso capitalista representam uma descontinuidade, uma estranheza (unheimlich) no urbano. São territórios desconhecidos, à margem ou entre prédios, vistos como ameaça. São territórios em geral evitados à todo custo porque ocupam no imaginário dos habitantes o lugar do estrangeiro. 

De acordo com Alessandra [1] do coletivo Escutando a cidade, “os lugares onde se sente a presença do unheimlich na cidade são também lugares de resistência, habitados por sujeitos em deslocamento, por pessoas ou grupos que justamente por estar a margem da cadeia produtiva são capazes de criar novas configurações de vida, que apesar de precárias e oscilantes, como os terrenos vagos, parecem ter algo a nos ensinar sobre como viver em um solo instável.”

A diversidade de territórios dentro da cidade nos coloca a questão:  Mas afinal, quem é o estranho/estrangeiro? 

Podemos partir da ideia de que o estrangeiro nos habita primeiramente, para então deslocarmos para o estranho nos laços e nos discursos que circulam na cidade. Roland Barthes (1993) afirma que a cidade é um discurso e o discurso é uma linguagem: a cidade fala com seus habitantes. Quando políticas públicas operam para que a partir dos espaços públicos sejam promovidos encontros com a diferença, nos tornamos menos estranhos e estrangeiros uns aos outros. 

O unheimlich urbano diz dos territórios nômades, deslocados e que apontam para uma estranheza e uma diferença que habita a cidade. Negar a diferença implica em um retorno do que é recalcado produzindo efeitos de ódio e segregação.  




REFERENCIAS 


FREUD, S. (1909) O infamiliar [Das Unheimliche]. Obras incompletas de Sigmund Freud. São Paulo: Autentica, 288p.


BARTHES, R.  (1985). La aventura semiologica. Trad. R. Alcalde. Barcelona: Paidós, 1993.


LEFEBVRE, H. (1991) The production of space. Blackwell publisher, Oxford, 33p.


[1] A cidade fala - texto disponível em: http://escutandoacidade.com.br/semanario/193296-a-cidade-fala

Saúde mental e trabalho

Por Mariana Anconi

Fui convidada a falar neste mês de Novembro sobre saúde mental e trabalho em um podcast da área de tecnologia (ZOFE - click aqui). Discutimos sobre alguns aspectos relacionados ao sofrimento psíquico, mal-estar e as demandas no mercado de trabalho. 

Um tópico em específico ganhou destaque: a síndrome do impostor. A princípio, não é um diagnóstico reconhecido pelo DSM (1), mas que está muito presente na fala de trabalhadores. O impostor, é um significante que circula muito entre profissionais da tecnologia. Descobri inclusive que existe um livro famoso da área de TI que tem este significante no título. 

A sensação de ser um impostor aparece na presença de uma angústia, associado a ideia de inferioridade em relação aos colegas de trabalho, de não pertencimento a determinado grupo. A pessoa não se reconhece em seus próprios méritos, se sente um impostor de suas próprias ideias. 

Uma cena que me ocorre sempre que surge este tema se refere a alguém em frente ao espelho que, ao ver sua própria imagem refletida, vê outra versão sua. É como um duplo, que traz a dúvida, confusão e horror sobre si mesmo. Este sujeito em frente ao espelho pensa: esse outro, que também sou eu, me coloca em risco, uma vez que, como impostor, pode ser descoberto a qualquer momento. É a ideia de que podemos ser traídos por nós mesmos. O homem não é senhor de si, ou “ o eu não é senhor de sua própria casa” como formulou Freud em 1917.

Nesta condição de impostor, mesmo que muitas pessoas se identifiquem, afetos e sentimentos podem estar envolvidos de diferentes formas em cada pessoa. Inclusive, este poder ser pensado como mais uma forma de falar de um mal-estar que aparece principalmente relacionado ao trabalho.

Durante a conversa no podcast surgiu a questão sobre como “ter" saúde mental no trabalho. Antes de tentar formular uma resposta, foi importante retornar a uma questão inicial: O que é saúde mental? 

Não é uma pergunta de um único caminho. É necessário optar por um discurso, um saber, para pensar sobre o tema. Além disso, esse saber, de preferência, tem que abrir o diálogo, pois ainda há uma nuvem cinza que paira sobre estas duas palavras (saúde mental), como um tabu,  relacionado ainda a crenças que julgam moralmente aqueles acometidos por algum sintoma ou psicopatologia. Isso faz calar, silenciar o sujeito. 

Quando o assunto é saúde mental, para a psicanálise o sofrimento é trabalhado no um a um. Ele é entendido como uma resposta da pessoa ao que está difícil de lidar,  ou ainda, ao impossível. Os diagnósticos dos manuais podem ser pensados como tentativas de se nomear um mal-estar que habita o sujeito. 

Freud (1930) fala do mal-estar como o impasse do sujeito, ou seja, sua impossível adequação ao ideal de universalidade que lhe é imposto pelo Outro. É preciso que ele (o paciente) fale sobre este diagnóstico, ou esta nomeação, e que possa construir um saber próprio a respeito.

Além disso, que possa colocar em suas palavras sobre o que se queixa. Há uma aposta ética do analista para que comece pelo “sinto mal” e faça um movimento lógico para o sintoma. Quinet (1991, p. 20-21) afirma: “ É preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo.” 

"Ter" ou "não ter" saúde mental não é uma questão da psicanálise. O que a práxis psicanalítica aponta tem a ver com o sofrimento e a impossibilidade de se ter uma vida mais "leve". Freud fala de saúde mental de um jeito que parece simples e que tenta responder a menos ideais: saúde mental é ter a capacidade de amar e trabalhar. Se você consegue realizar ambas tarefas, está num bom caminho.

A psicanálise não se propõe a curar o sujeito, a noção de cura passa pelo o que cada um faz com seu sintoma, e a que ele (o sintoma) está respondendo. Entende-se aqui por sintoma como uma formação do inconsciente, também como resposta do sujeito aos discursos que circulam na sociedade.

No trabalho, os discursos circulam e estabelecem demandas, seja em uma empresa de TI, um grande banco, escritórios de advocacia, profissionais da saúde, autônomo, trabalho informal, subempregos, etc. 

Existem patologias que estão associadas especificamente ao campo do trabalho, como a  síndrome do impostor. O que de início já chama atenção, pois se trata de um recorte do sofrimento em um único aspecto da vida.

A partir da clínica, no que concerne ao mal-estar relacionado ao trabalho ou não, é possível recolher algumas falas que apontam para uma posição subjetiva de jamais estar em condições de satisfazer o que se espera do outro. Apontar isso e trabalhar com os ideais que o colocam em situação de impotência são possibilidades de direção do tratamento analítico.

Destaco dois aspectos que nos ajudam a pensar os sintomas. Pontuo como fatores internos e externos que podem ser vistos como mesmo lado de uma figura topológica (banda de Moebius).

De um lado temos o discurso que rege no mundo corporativo, das empresas que não deve ser desprezado e afeta trabalhadores. Demandas da empresa que giram em torno de produtividade, números e claro, retorno financeiro que o funcionário oferece a empresa. A pressão para atingir metas, ou apresentar um projeto relevante representam demandas que tem efeitos diversos em cada um. 

No entanto, os discursos reproduzidos no trabalho (como o do capitalista proposto por Lacan - Seminário XVII) produzem sintomas já até bem “aceitos” socialmente, servindo bem à lógica do mercado e das empresas, como a pessoa que se diz workaholic (termo em inglês para "trabalhar em excesso"). Além disso, a diminuição dos direitos trabalhistas, também produz sofrimento, que com um traço perverso dificulta ainda mais a vida do trabalhador.

Por outro lado é importante articular tais demandas, por vezes excessivas, com o que cada um  faz diante disso ou como lida. Assim, destaco aqui três aspectos associados ao sofrimento que merecem atenção na clínica:

  • Ideal: um ideal que vira a única possibilidade de ser bem sucedido, acompanhado do pensamento: se eu não sou o que eu gostaria de ser, eu sou nada. 

  • O lugar que se ocupa na relação com o Outro: o outro pode ser excessivo nas demandas ou ainda, impossível de satisfazer. São acompanhados da ideia: O que estão esperando de mim?; O que acham do meu trabalho?; “Eu não sou tudo isso que pensam que sou”; Lacan no Seminário X fala da angústia produzida quando alguém fica no lugar de objeto de gozo do outro;

  • A repetição e sofrimento: Repetimos no significante aquilo que gera sofrimento. É preciso que alguém (um analista) escute a repetição e opere como causa do desejo.

Com todos os aspectos levados em conta, considerando o mal estar e a forma como cada um lida referente a posição subjetiva frente as demandas sociais e no trabalho, a saúde mental pode (e deve) ser pensada para além da ideia de ausência de patologia. Canguilhem em O normal e o patológico (1943/1995) nos adverte que o patológico não possui uma existência em si, podendo apenas ser concebido numa relação, num contexto social.

Quando procurar ajuda? Quando houver sofrimento. 

Notas

(1) DSM-5 - Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais» de American Psychiatric Association.

Referências 

CANGUILHEM,G. (1943/1995) O normal e o patológico, trad. Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas e Luiz Octavio Ferreira Barreto Leite. – 4a. Ed.- Rio de Janeiro, Forense Universitária.

FREUD, S. (1917) Conferências introdutórias sobre psicanálise. Obras completas, ESB, v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.

________. (1930) ”Mal estar na civilização", Obras completas, ESB, v. XXI, p.65-148.   

LACAN, J. - Seminário X - A Angústia (1962-63), documento de circulação interna do Centro de Estudos Freudianos de Recife.

________. (1991[1969-1970]). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

QUINET, A. (1991) As 4+1 condições da análise. 13. reimpr. Rio de Janeiro: Zahar.

 

Desenlace

Esta semana fui a um restaurante e presenciei um diálogo entre pai e filho. O pai tentava conversar com o garotinho sobre o uso do celular à mesa. Disse que se um dos dois usasse o celular alguém ficaria sozinho e, que seria muito mais legal, se eles dois ficassem conversando e brincando juntos.

O garotinho – por volta dos cinco anos – continuou insistindo, dizendo que queria brincar com o celular. De repente, a conversa iniciada com cuidado e paciência pelo pai, tomou outro rumo, quando este percebeu que não seria fácil convencê-lo. Irritado, perguntou ao menino: "Quem manda aqui?”

Prontamente, a criança respondeu: "o dono do Outback!”

O diálogo entre os dois foi o que me fez pensar, nesse momento, sobre as relações, os laços. Em uma busca rápida na internet encontrei a seguinte definição de laço: “Nó corredio facilmente desatável, com uma, duas ou mais alças.”

Acredito que há muitas outras formas interessantes de poder dizer sobre isso, mas esta definição me chama atenção por dar ênfase na facilidade do desfazer ou desatar o laço, ou seja, a possibilidade do desenlace.

Nas relações, seja na família, no trabalho, nas relações ditas amorosas, o que muitas vezes é visto como o que é sólido (certezas) se desmancha no ar, como disse Karl Marx(1). Na vida, os laços são como os do sapato, ora apertam, ora soltam, ora derrubam. Um laço conecta dois ou mais entre si, salva da solidão, conforta, assegura, tranquiliza, mas também o laço amarra, acorrenta, constrange, limita, incomoda.

A psicanálise se dedica ao tema com vários estudos. Um dos jeitos de avançar na discussão sobre os laços é pela ideia do laço social. O que faz laço entre pessoas ? Antes de nos assegurarmos com uma resposta, podemos partir da ideia de que os laços sociais são tecidos e estruturados pela linguagem e, com Lacan são, portanto, denominados discursos.

Ou seja, há diferentes possibilidades de estabelecermos laços sociais. Lacan aponta quatro formas: o discurso do mestre, universitário, da histérica e do analista. Acrescentando posteriormente um quinto discurso, único que não faz laço: o discurso do capitalista.

Os discursos são, na interpretação de Lacan, os quatro modos de relacionamento apontados por Freud (1930) como fontes do sofrimento do Homem: governar, educar, analisar e fazer desejar. São impossíveis  aos quais o Homem se propõe a realizar, mesmo com seus fracassos.

O que podemos pensar com Lacan é que existe um impossível em cada discurso. O laço proposto por cada um não está garantido. Se pensarmos no discurso do mestre, por exemplo, há uma dependência do outro para que opere sua função. Na educação, ser professor não garante que haverá ensino se, o outro (aluno), não reconhecer o lugar de quem ensina (mestre).

Com os pais de crianças, também podemos pensar os lugares que ocupam no ato de educar. A questão é, por qual via o fazem? Os laços podem operar com diferentes tons e significantes.

No caso da conversa em que mencionei no início do texto, o lugar de "quem manda aqui” não estava garantido com um reconhecimento pelo outro (criança). A posição do menino diante do discurso operado pela fala do pai desmontou o laço proposto.

A maneira como cada um responde ao discurso é o que também possibilita fazer giro e mudar para outras formas de laço. 

A certeza do “quem manda aqui” fracassou, como acontece inúmeras vezes na educação de crianças. A resposta do garotinho foi bem humorada, pois provocou risadas aos que estavam por perto, mas silêncio entre os dois.

De volta a pergunta, o que faz laço? Considerar a possibilidade do desenlace e seu impossível (não sua impotência), desmanchando a solidez das certezas, pode ser uma via para dar espaço ao desejo. 

 

(1) Manifesto comunista  (1848)

Estrangeiros em Nova York

Por Mariana Anconi

 

Desde que mudei para Nova York sou atravessada por palavras, significantes e expressões deste território que, são transmitidas nas falas, nos discursos, nos gestos, nos atos, na política da cidade, nos museus e exibições, nos bares, na mídia, no papelão em que escrevem os homeless (sem teto), nos delírios e no "sonho americano".

Aquele que vem de fora pode apontar mais facilmente as loucuras e tentativas de se negar os furos em uma sociedade. Estar no lugar do estrangeiro significa ser atravessado pelo estranho que convoca ao novo, mas ao mesmo tempo, convoca ao movimento de retorno "as raízes", a "essência" e ao que uma vez já foi lar. Um retorno ao conhecido, ao nomeável, ao familiar. 

A cada encontro ou evento de Psicanálise que frequento retorno à época em que Freud foi estrangeiro nos EUA. A viagem que fez ao Novo Mundo começou em Nova York depois se estendeu por outras cidades. Como qualquer turista seguiu um roteiro básico com passeio ao Centra Park, almoço no terraço do Hammerstein, procurou pelas obras gregas no Museu Metropolitano (MET) e, pela primeira vez, assistiu a um filme no cinema. Porém, seu objetivo principal foi dissipar a peste por aqui. 

Na biografia escrita por Jones (1979) vemos um Freud incerto quanto ao que esperar dessa viagem. Depois de subir ao palanque na Clark University disse estar sonhando acordado ao ver o público presente para ouvir suas ideias. Não é à toa o uso da palavra "peste" para nomear o caráter subversivo desta que seria mais que um sistema de pensamento. Lá proferiu as famosas cinco conferências intituladas como "Cinco lições em Psicanálise " (1909).

Esta viagem teve importância com um caráter "oficial" do reconhecimento internacional da Psicanálise. Naquela época, as distâncias eram concretas e, ter sua obra divulgada em outro continente, avançando mares e oceanos era algo muito significativo. No artigo de Myriam Chinalli (2009), encontrei uma citação que corrobora a importância para Freud desse reconhecimento na América e, após esta viagem, disse a Ferenczi "minha teoria não se trata de um delírio". 

Recentemente vivi a experiência de um entusiasmo, como se fosse a chegada de mais uma peste nos EUA: a arte de Tarsila do Amaral. No início do ano, os EUA receberam a primeira exposição exclusiva da artista, no MoMa. Pensei em Tarsila como estrangeira aqui em Nova York e na forma como seria recebida pelos críticos e curiosos. 

Visitei a exposição buscando matar a saudade das cores e dos traços. Uma brasilidade transmitida pelo olhar de uma mulher que disse: "quero ser pintora do meu país". Frase enigmática. Um desejo que se concretizaria a posteriori com o reconhecimento internacional e dos brasileiros. 

Para ser pintora de sua terra buscou beber de fontes artísticas na França. O movimento de sair de um território, convoca a um distanciamento, ao olhar crítico e, muitas vezes, a valorização do que é singular de um lugar. O valor de uma obra está no que ela transmite de uma cultura através de um olhar único e subjetivo. Assim, Tarsila o fez.

Andando pelo MoMa, pensei o que será que um quadro como A negra (1923) pode dizer ou despertar em alguém não-brasileiro? Ou ainda, a obra Operários (1933)? Ou A cuca (1924)? Ou Abaporu (1928), eterna estrangeira no museu Malba na Argentina. O que os argentinos dizem sobre Abaporu?

Além dos quadros de Tarsila, a exposição contou com os originais do Manifesto Antropofágico (1928) elaborado por seu marido, o poeta Oswald de Andrade que foi inspirado pela obra Abaporu. Assim como Tarsila inspirou o Manifesto de Oswald, várias mulheres inspiraram Freud na invenção da psicanálise. Passei os olhos pelo Manifesto e fui surpreendida por uma referência literal a Freud. Os antropofagistas beberam na fonte de Totem e Tabu (1913).

Freud e Tarsila estrangeiros em Nova York. 

Foi e é significativo o alcance destes em diversos países, culturas e línguas. Um fato em comum aos dois: o escasso reconhecimento do valor de suas produções em seus países de origem. No caso de Tarsila, houve demora por parte dos brasileiros em reconhecer como arte seus trabalhos. E Freud, em Viena, foi "a única parte do chamado mundo civilizado que não o reconheceu" (Chinalli, 2009, p.6)

Tarsila deixou o legado da valorização da arte como produção subjetiva atravessada por uma cultura, por significantes, sonhos e lutas de um povo. E de alguma forma, transmitiu isso na exposição em Nova York, em um cultura com trajetória diferente.

Freud em sua visita aos EUA nos deixou um legado para além das "Cinco lições": a de buscar saber sobre o estrangeiro em nós. Esse estranho familiar que põe em cheque as certezas. Esse outro que nos habita.

Não é preciso estar em outro país para ser estrangeiro. 

 

CHINALLI, M. A chegada da peste: cem anos da viagem de Freud aos EUA (1909-2009)

 

Quando o analista interrompe o tratamento

 Por Mariana Anconi

Toda análise tem um fim. Pode ser o tempo de um 'fim de análise' ou o tempo de uma interrupção (definitiva ou não). As situações de interrupção estão sujeitas a ocorrer dos dois lados (analista e analisante).

Do lado do analisante (paciente) a situação de uma interrupção merece uma atenção  por parte do analista, pois entende-se como efeito de um conceito chamado 'resistência'. Lacan já apontava que é uma resistência à escuta, portanto, está do lado do analista. Essa é uma advertência importante que muda os rumos sobre o manejo na clínica entre os psicanalistas.

Para além da resistência, os atendimentos podem ser interrompidos por outros motivos e questões que atravessam os pacientes, como contingências da vida (viagens, morte, impossibilidade de pagar o tratamento, etc) e, destaco aqui, o 'estilo do analista', que interfere para que a transferência opere no tratamento (condição crucial para que os manejos produzam efeitos).

E quando o analista interrompe a análise de seu paciente?

Podemos pensar em inúmeras situações para que uma análise seja interrompida: um analista que decide se aposentar e não mais atender no consultório; Um analista que resolve tirar um ano sabático; Um analista que muda de país ou cidade; Um analista que adoece e precisa se afastar por um tempo; Um analista que morre.

De todos os casos, a morte seria a única contingência em que não haveria um "tempo 2" para que se pudesse manejar os efeitos disso na transferência. Para as demais situações, quando necessária a interrupção, o analista pode manejar os efeitos dela em um segundo tempo, efeitos singulares que, inclusive, podem atravessar os sintomas dos pacientes, como a sensação para alguns de que ele desaparece (morre) ou abandona. Porém, nessss casos ainda existe a possibilidade de endereçar algo ao analista quando, por exemplo, estiver em situações de angústia, mesmo que seja através do uso de tecnologias (telefone, skype, facetime, etc).

Um dos efeitos interessantes para alguns analisantes é o da constatação de que seu analista tem uma vida para além daquele fragmento de tempo em que se encontram no consultório. Isso não é por acaso, afinal de contas, no decorrer de uma análise,  o analista opera uma função, como agente causa do desejo (a) e não de sujeito barrado ($). Portanto, quando as contingências da vida aparecem do lado do analista, além de serem uma novidade, isso não é sem efeitos.

Como cada analista faz a interrupção do tratamento é particular ao estilo de cada um, mas sempre pautado na ética do não desamparo na angústia. Do lado do analista também há efeitos quanto a interrupção de seus atendimentos, por exemplo, ao mudar de cidade/país.

Quando um analista se despede não é das pessoas (seus pacientes) exatamente.

É e não é.

É, porque a cada sessão o analista marcou uma presença/ausência com o corpo. E não é, porque se trata de um lugar que ocupa para operar um discurso (analítico), uma oferta que fez àquelas pessoas: sua escuta. Portanto, ele não se despede das histórias, nem das frases enigmáticas, que ouviu. Tudo isso se transforma em outra coisa, que não é da ordem do conhecimento empírico nem é cumulativo.

A clínica só acontece quando o analista pode sustentar uma aposta (que não é às cegas) inerente à escuta e, que coloca a todo tempo, o seu próprio desejo de analista em questão. Sustentar isso é efeito desse desejo e não causa.

Analisantes começam e terminam suas análises. Esse não é um caminho linear. Há voltas, labirintos, buracos e lacunas. Como cada um atravessa esse caminho é singular. Não há manual que represente o mal estar humano.

A clínica tem um fator da transitoriedade (com ou sem interrupções) que não a faz perder seu valor, justamente por produzir marcas no sujeito a partir de cortes no tempo. As marcas; estas sim, podem atravessar o tempo.

 

 

Trecho do texto 'Sobre a transitoriedade' de Freud (1915):

O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. (...) Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

 

A psicanálise cura?

Por Mariana Anconi

 

A partir das discussões em torno das últimas notícias sobre a liminar que, na prática, torna legalmente possível que psicólogos ofereçam terapia com objetivo de reversão sexual, popularmente chamadas de cura gay, está sendo possível discutir e questionar o que se quer dizer sobre cura e tratamento da homossexualidade. Voltar a esta discussão nos coloca na repetição de um tema (sintoma) que ainda precisa ser discutido e mediado pela palavra.

No entanto, para além das discussões de patologização, o que me fez dedicar algumas linhas sobre o assunto foi o efeito para algumas pessoas do posicionamento contrário dos profissionais em relação a liminar, elas se questionaram: Se não pode curar/tratar, o que faz um psicanalista frente as demandas da sexualidade? Esta pergunta, na verdade, foi direcionada a mim através de uma mensagem de uma amiga que, ao constatar minha posição contrária a liminar, trouxe à tona esta questão carregada de dúvida e legitimidade, a respeito, do tratar e curar. 

Há cura no fazer analítico?

Primeiro, estamos falando de sexualidade. Para a psicanálise esse é um conceito caro e importante. A sexualidade em psicanálise não se trata de sexo, se trata de constituição subjetiva através da linguagem e está nas relações que atravessam o corpo desde a mais tenra idade. Uma mãe que cuida de seu bebê, que nomeia as partes de seu corpo, que investe libidinalmente na criança, é um exemplo de sexualidade. Dito isto, fica inviável pensar em uma cura para algo que é da ordem do humano.

O termo "cura" está presente na obra de Freud, por exemplo na expressão "talking cure" (cura pela palavra). No entanto, é importante problematizá-lo. De qual cura Freud falava ao relatar o desaparecimento dos sintomas das suas pacientes histéricas cujo corpo exprimia uma linguagem incompreensível para uma medicina organicista? Veremos.

Por outro lado, temos a ideia de cura como a eliminação de um fenômeno patológico. Nesse sentido, ele responde bem ao campo médico, que está referenciado a eliminação do fenômeno/doença.

Se pensarmos na lógica médica a psicanálise  não oferece uma cura, mas se propõe a um tratamento. Esse é o ponto chave para entendermos o fazer analítico enquanto uma proposta de um tratamento que se dá pela linguagem. Diferente do fenômeno, a psicanálise lida com o sintoma, que pode ser entendido como uma metáfora para o sofrimento.

Quanto ao termo "tratamento", este também oferece possibilidades distintas de entendimento.

1. ação ou efeito de tratar (curar);

2. maneira de receber ou ser recebido (acolhimento).

Não à toa, a palavra acolhimento é familiar no meio analítico, o analista acolhe demandas e questões. Acolher é escutar o sofrimento e operar de um lugar que ele (sujeito) possa produzir um saber sobre si, tendo efeitos em sua posição subjetiva, ou no jeito de lidar com as questões que lhe são difíceis. Por exemplo, quando há uma demanda de escuta para um corpo em desacordo consigo mesmo, quando não se reconhece enquanto tal.

A posição de um psicanalista em não ofertar um tratamento para homossexualidade não equivale a recusa em escutar pessoas que apresentem questões com sua sexualidade. Equivale a oferecer um tratamento ao sofrimento, às angústias do sujeito.

 

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A renúncia do analista


Jane é divorciada e dona de uma padaria de sucesso em sua cidade. Passados 10 anos de seu divórcio e três filhos crescidos, ela finalmente tem um bom relacionamento com seu ex-marido Jake. Jane e Jake tem um reencontro na formatura de faculdade do seu filho Luke. Após um jantar, os dois se envolvem e tem um caso. No filme "Simplesmente complicado" a atriz Meryl Streep que interpreta Jane, se vê no lugar "da outra mulher" com o ex-marido que é casado, o que lhe provoca sentimentos ambivalentes. Frente a isso, decide então recorrer ao seu terapeuta com a pergunta pronta: "O que devo fazer?"

Quantas vezes um analista já ouviu isso? Incontáveis vezes. A maneira como os pacientes endereçam perguntas e expectativas, mesmo que não expressadas de forma direta, são em última instância demandas de amor. Como Freud ensina, trata-se do amor transferencial, mas não só disso. Por outro lado, a maneira como o analista recebe e acolhe estas demandas produz efeitos na direção de tratamento. "Devo acabar o casamento?", "Devo trocar de emprego?", "Devo deixar de ligar, para ele sentir minha falta?", "Devo acreditar nela?". São todas perguntas legítimas que falam de um modo de sofrimento ou uma formas de mal estar. 

A partir do que é dito (e não-dito) em análise, o analista poderá formular uma hipótese a respeito da estrutura a qual o analisando está referido e a partir desta hipótese manejar escutar as demandas para além do que está sendo dito. Freud a partir dos casos que atendeu foi elucidando questões importantes a respeito do manejo das demandas, mesmo quando cometeu deslizes aprendemos com ele. No caso Dora (1), por exemplo, a paciente decide interromper sua análise, uma vez que seu analista (Freud) insiste em interpretações que impossibilotaram a formulação de um enigma para paciente, que seria: "o que é uma mulher?". Freud sem se dar conta, tenta durante as sessões com Dora responder ao pedido (demanda) do pai: "Coloque minha filha no bom caminho." E a partir disso, deixa de escutar a paciente, fazendo com que a mesma interrompesse abruptamente o tratamento.

Em seu livro "A ética e a psicanálise" Maria Rita Kehl destaca que há uma renúncia por parte do analista e não uma recusa quanto a responder às perguntas feitas pelos pacientes. A diferença entre uma e outra é importante. Renuncia-se a responder simplesmente porque não se tem resposta, e não por que tem uma resposta e não quer dar. Diferente no caso da recusa em que o analista guardaria uma resposta para si e não a compartilharia com o paciente. Não se trata disso. A renúncia remete, por exemplo, as situações de silêncio em análise. Esse silêncio, não deve parecer uma recusa ao falar, ao contrário, um poder falar, mais ainda.

Voltando a situação do filme, há uma cena em que Jane pede um horário "extra" com o terapeuta e vai até o consultório. Ao encontrá-lo ela diz: "Eu sei como a terapia funciona, mas neste caso eu preciso que me diga o que pensa. Quero que me diga o que fazer". O terapeuta faz uma pausa, fala algumas coisas que os dois já conversaram durante as sessões sobre o fato de Jane ser "encanada" com tudo, e solta um "let go Jane", traduzido para "desencana Jane".

Ser encanada com tudo é a forma de Jane lidar com a vida, com as pessoas. Quando o terapeuta diz para ela desencanar há uma ambiguidade em sua fala. Ele poderia estar falando para Jane "desencanar do ex-marido" ou então desencanar das preocupações e seguir com o affair. Neste caso, a paciente interpreta como uma autorização do analista para seguir em frente o caso com o ex-marido.

A frase dita pelo terapeuta - mesmo que tenha escorregado na tentativa em ajudar Jane -  é um bom exemplo para pensarmos em como a fala está permeada pelo mal-entendido que, em uma situação de análise, deve caminhar para poder abrir o sentido e não fechá-lo como ocorre no filme. Assim, voltamos a pergunta inicial de "como opera um analista frente as demandas ?"  Entende-se que há uma escuta do que está para além da pergunta feita e direcionada ao analista, que é um querer saber sobre Outra coisa.

 

(1) “Fragmento da análise de um caso de histeria”, 1905. Dora é um dos cinco grandes casos clínicos publicados por Freud, juntamente com Pequeno Hans, Schreber, Homem dos ratos e Homem dos lobos.

A angústia e o vazio de sentido no trabalho: Qual a lógica por trás d'Isso?

Por Mariana Anconi

“Isso funciona tão bem, tão rápido, que isso se consuma”   Lacan

 

Lembro que por volta dos meus 15 anos fiz minha escolha profissional. Cheia de idealizações, mas muito clara para mim naquele tempo. Foi baseada em uma conversa com uma amiga um pouco mais velha pela qual eu nutria certa admiração e que havia começado o curso de Psicologia. Durante a conversa, falamos sobre temas diversos, mas principalmente a respeito dos mitos e tragédias gregas. Ali decidi que queria escutar pessoas. 

Eu não sabia muita coisa sobre Psicologia. Sobre a Psicanálise eu havia tido contato somente com o livro A interpretação dos sonhos - Freud (1900) na oitava série do ensino fundamental. Não sabia se iria ganhar dinheiro, ou mesmo se o "mercado de trabalho" na cidade a qual eu morava na época era favorável à prática clínica. Não fazia ideia inclusive que escolhia uma das profissões consideradas impossíveis por Freud. Muito não-saber, poucas respostas e muito desejo. Hoje vejo que foi um conjunto de fatores interessantes para uma futura psicanalista.

14 anos depois e a prática clínica tem me feito retornar, através dos pacientes, às questões relativas as escolhas profissionais e as dificuldades e angústias na formação (ou seria deformação?) profissional. Entendo a clínica como um termômetro que sinaliza o nível de angústia nos sofrimentos presentes na cultura, ou seja, o que aparece como tema nos sofás, divãs e poltronas nos consultórios dos psicanalistas está atravessado por construções de uma sociedade e cultura ao longo do tempo e, mais ainda, por alguns discursos estabelecidos.

Os discursos são regidos por diferentes lógicas que geram efeitos de impossibilidade e impotência no laço social. Até aí tudo bem, porque lidamos o tempo todo com estas duas condições. Porém tem um discurso que inviabiliza justamente o laço social, promovendo uma ruptura – discurso capitalista – e é por ele (não somente) que muitas pessoas se veem adentrar no espiral do sem sentido quando se queixam de seu trabalho e profissão.

O cenário atual apresenta ideais muitas vezes insustentáveis. Por trás das tecnologias administrativas importadas dos países desenvolvidos,  e de toda uma racionalização imprescindível para competição, da figura do empreendedor, da exaltação de figuras emblemáticas, cria-se uma mentalidade gerencialista que ultrapassa as fronteiras das empresas e passa a tornar modelo para uma representação de sociedade. Vide o cenário político sendo representado pelos gestores. 

Nesse sentido, problematiza-se o imperativo de adaptação ao mundo do trabalho contemporâneo. O mercado financeiro talvez por lidar diretamente com o capital (seu meio e seu fim) tem números expressivos de pessoas angustiadas frente ao real da ruptura entre aquele que agencia o discurso (agente) e o outro inserido nessa lógica. Como consequência, vemos a produção de novas formas de se preparar para estas demandas, por exemplo, o trabalho de profissionais que ocupam um lugar privilegiado de "conselheiro", como alternativa àqueles que buscam direção na carreira, mas também como tentativa de corresponder às demandas regidas por significantes como liderança, gerenciamento, alto desempenho e perfomance, inteligência emocional, etc. Vocabulário comum no meio corporativo. 

Esse movimento de buscar respostas de si e para si em um outro não é inédito, os efeitos disso no sujeito dependem também do que vem como resposta desse outro.  A angustia frente ao sem sentido presente no mercado de trabalho clama por respostas. Não é a toa que a oferta de profissionais na posição de mestres frente ao desamparo do outro só cresce e faz levantar algumas questões. Afinal, o mestre só existe na relação com o escravo. Só que no caso da lógica do capital, seria um mestre ao avesso, que faz o sujeito acreditar que ele é o agente, produzindo sempre novos gadgets.

Os jeitos de lidar com a angústia, as frustrações na profissão, o vazio de sentido em um trabalho são particulares e não merecem generalizações. No entanto, quanto aos jeitos de lidar que implicam em sofrimento, há de se considerar a oferta de uma escuta para além dos significantes impostos pela lógica do discurso do capitalista. Uma escuta aberta com produção de um saber subjetivo.

Sempre lembro da importância das perguntas "certas" a serem feitas, mais do que na insistência em respostas vazias. Como saber se uma pergunta é pertinente? Através do efeito que ela causa. Um profissional desavisado poderia dar ênfase na pergunta "O que motivou estas pessoas a escolherem uma profissão que as fazem infelizes?". A pergunta que se propõe e que promove a construção de um novo saber vai na linha da "Por qual lógica e ideais estas pessoas estão atravessadas ao fazerem suas escolhas? E d'Isso, só elas podem dizer. 


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No caminho, um tropeço

Por Mariana Anconi

 

O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta
De vez em quando acerto
Depois tropeço no meio da linha

Marina Lima

 

     Fazer planos. Imaginar o futuro. Criar expectativas. Há quem prefira evitar tudo isso para não se deparar com a frustração. Como será viver o tempo todo evitando frustações/decepções? Trata-se de uma lógica em que a possibilidade de uma decepção vira uma certeza e, consequentemente, a perspectiva de uma vida baseada no que vai dar errado se instala. Ter o controle (ou a ilusão de tê-lo) das situações pode ser uma forma de tentar obter garantias na vida. Felicidade significa não ter frustrações?

     O avanço da tecnologia serve de termômetro e indicativo para as questões e problemas de uma sociedade, por exemplo, os celulares e computadores como dispositivos indispensáveis no dia a dia das pessoas, mas nem eles escapam aos furos. Quem confia plenamente em seu computador durante o processo de escrita de uma tese de doutorado, por exemplo? Salvamos arquivos em inúmeros dispositivos, pastas, pen drive, até na nuvem (à quem pague o céu é o limite). Nesse sentido, busca-se formas de obter menos riscos nas escolhas e mais garantias, sempre com um custo (às vezes alto dependendo da moeda que se paga). 

     Sobre esse preço a ser pago, há quem pague com a moeda psíquica. O tropeço consiste no desgaste psíquico para fazer com que as coisas não "saiam do eixo". Para tapar os buracos há alguns remendos, que, frágeis ou não, tamponam e afastam o sujeito de seu desejo. Há um grande número de pacientes na clínica se queixando de um mal estar difícil  de nomear, que toma conta do corpo, por exemplo, com dores no peito, falta de ar, sensação de desmaio. E para cuidar disso não basta apenas o remendo, pois se trata de uma costura complexa.

     Ao tentar fazer borda ao mal estar em que se vive – através da fala – toca-se no ponto-chave em que justamente as coisas escapam. As incertezas, as dúvidas, e a falta de controle na vida em muitos aspectos. Esse limite, o qual também chamamos de castração, é particular a cada um. A princípio a castração nos leva a pensar que com ela só temos encrenca na vida (problemas e mais problemas). Ledo engano, na verdade, ela ajuda a manter um modo específico de "organização psíquica", seja reconhecendo ou não sua existência, construindo assim a realidade psíquica.  

     E se estamos falando das incertezas, dos furos, da castração e dos efeitos disso, como lidar com isso tudo?

     Poderíamos encerrar o texto retomando algo já dito em outros artigos do Escutatório: é preciso falar sobre como isso afeta a cada um, sabendo que há um impossível em jogo que concerne as certezas da vida. Porém, destaco desta vez,  a questão que está no pano de fundo, que se refere a uma certeza e verdade a qual todos temos que lidar: a finitude. Se há uma única certeza na vida ela é a finitude. A morte está sempre sendo atualizada na vida. 

     A partir disso, pode-se avançar na ideia de felicidade não apenas como um caminho para a vida eterna em que a morte é driblada, mas sim em descobrir o que está em jogo a cada tropeço na vida e, a partir disso, reinventar a própria realidade.

     Em O Sétimo Selo do diretor sueco Ingmar Bergman, Antonius Block joga uma partida de xadrez com a Morte. Faz exatamente o que fazemos ao longo da vida: jogamos uma longa partida ao final da qual estaremos derrotados. Contudo, o destaque fica para a extraordinária cena em que Antonius Block vai a um confessionário e, em vez de um padre, é atendido pela própria Morte e, ao fim do diálogo, Antonius fica feliz por simplesmente jogar. 

 


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Afinal, qual a ética da psicanálise?

Por Mariana Anconi

      O que nos traz em mente ao falar de ética nos dias de hoje? Não parece difícil pensar na esfera política a qual (sobre)vivemos que traz questionamentos quanto a ausência ou presença dela. Atrelado a isso, vê-se um movimento em julgar os comportamentos e práticas pela via da moral, ou mesmo uma tendência em ter que estabelecer o lado bom e o lado mau, o herói e o vilão das situações, o que reforça o pensamento maniqueísta pautado em uma norma ideal e universal dos comportamentos. Seguindo esta linha, supomos uma ética presente nos laços e vínculos pessoais e de trabalho que nos leva ao encontro daquela proposta pela filosofia. 

  Basta uma pesquisa rápida com a hashtag #ética na internet para confirmarmos a generalização da noção de bem ou mal ou dos comportamentos morais esperados em sociedade. Facilmente encontramos um discurso vinculado às práticas profissionais e às relações humanas pautadas na razão e na preocupação de se ter uma "consciência leve". Frases que destaco: "Não existe travesseiro mais macio do que uma consciência limpa"; "Ética é aquilo que você faz quando todos estão olhando"; "Se quiser conhecer uma pessoa, não ouça nada do que ela diz, apenas observe seus atos". Fica claro o caráter avaliador e normativo dos comportamentos e dos atos numa perspectiva aristotélica.

   E a ética da psicanálise? Em que ela se baseia? Seria a mesma proposta por Aristóteles à Nicômaco? Se pensarmos que ela visa a um bem final e universal com auxílio da razão, não. Portanto,  se há um bem, precisa-se definir à que bem visa a ética psicanalítica. Seria o bem-estar, por exemplo? Vejamos.

    Alguns pacientes procuram por atendimento psicanalítico quando encontram-se com dúvidas referentes a um conflito moral e ético, por exemplo: o que é certo e o errado, escrúpulos por determinada conduta, vergonha por alguma atitude, pensamento ou até mesmo um sonho. Nesses casos, esse conflito o faz renunciar de seu desejo (inconsciente) e permanecer em uma repetição que o mantém em sofrimento. 

     Ao bater na porta de um analista, em termos gerais, o paciente busca a cura e a resolução de seu problemas. Diante disso, destaco dois pontos importantes: A demanda de felicidade "plena" – feita pelo paciente – e o desejo inconsciente. Esses dois pontos – a meu ver – são norteadores para pensarmos a ética na clínica psicanalítica. 1. A demanda pela felicidade “plena”  por parte do paciente embora plausível, não deixa de evocar alguns problemas, uma vez que, cabe ao analista sustentar – na transferência com o paciente – a dimensão trágica para que a demanda de felicidade se transforme naquilo que irá impulsionar o analisando/paciente ao acesso ao que lhe é mais particular: seu desejo inconsciente. 2. O desejo inconsciente, exatamente por ser inconsciente não está “localizado” na razão, é algo que escapa à consciência. No entanto, sua existência pode ser indicada, por exemplo, pelo sintoma (resposta que o paciente apresenta frente a um conflito psíquico) que, por ter o caráter de metáfora, ao mesmo tempo que vela, revela-o. 

      Logo, a ética psicanalítica não trabalha na promessa de felicidade plena ou bem universal, mas sim, a partir de uma escuta pautada na suspensão do juízo moral diante da fala do paciente, constituindo uma aposta no singular das respostas de cada um.  O analista segue na direção de apontar ao sujeito a dimensão de responsabilidade por suas questões e seu desejo.

     Portanto, estamos falando de uma ética que não impõe ideais morais ao paciente, e que leva em conta o paradoxo do conflito psíquico. Por exemplo, uma pessoa com algum tipo de vício (álcool, drogas, etc.) está avisado pela sociedade, familiares e por si mesmo das consequências para sua saúde e bem-estar, porém ele persiste em sua posição, mesmo que acarrete sofrimento. Aí está o paradoxo do conflito psíquico. Por outro lado, o analista não repete o discurso moral ao paciente, mas aponta para a causa de seu desejo. Desse modo, pode-se entrar em cena o que conta como responsabilidade do próprio sujeito por suas paixões. Essa é a ética anti-normativa e anti-universalista. É a ética psicanalítica do bem-dizer. 

 


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