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Entre-vistas com Vera Iaconelli

Apresentamos aos nossos leitores a entrevista realizada com a psicanalista Vera Iaconelli. Todas as respostas foram transcritas de audios enviados pela nossa convidada. Dessa forma, mantivemos o estilo informal comum à fala oral.  

A seção "ENTRE-VISTAS"  do site Escutatório consiste em perguntas feitas aos profissionais que apresentam um percurso pela psicanálise e, através de seus posicionamentos acerca de questões atuais, nos convidam a refletir e a (des)construir saberes. Lembramos que as respostas se referem ao modo de pensar do convidado sobre o tema proposto por nós. 

Esperamos que as "entre-vistas" aqui publicadas possam inspirar e suscitar questões para além das que foram colocadas ao nossos convidados. Agradecemos a Vera pela disponibilidade e generosidade em participar deste projeto.  

Boa leitura a todos! 


Vera Iaconelli é psicóloga e psicanalista. Atende em clínica particular jovens e adultos. Colunista do jornal Folha de São Paulo. Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Membro da Escola do Fórum do Campo Lacaniano SP, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Professora convidada do setor de Especialização em Psicologia Hospitalar da Maternidade São Luiz, Professora convidada do setor de Psicologia do Hospital do Coração, Conselheira Técnica da Associação de Doulas de São Paulo ADOSP, Diretora e professora no Instituto Gerar. 

Vera Iaconelli é psicóloga e psicanalista. Atende em clínica particular jovens e adultos. Colunista do jornal Folha de São Paulo. Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Membro da Escola do Fórum do Campo Lacaniano SP, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Professora convidada do setor de Especialização em Psicologia Hospitalar da Maternidade São Luiz, Professora convidada do setor de Psicologia do Hospital do Coração, Conselheira Técnica da Associação de Doulas de São Paulo ADOSP, Diretora e professora no Instituto Gerar. 

Escutatório: Como foi seu encontro com a Psicanálise?

Vera Iaconelli: A minha escolha pela psicanálise passa pelo sofrimento pessoal. Busquei psicoterapia na adolescência, passei por várias abordagens, até que eu encontro no setting analítico o que é essa experiência psicanalítica; me encanto e percebo os efeitos sobre mim. Na época, já era psicóloga e começo a fazer toda uma guinada a partir da minha experiência como analisante. 

 

Escutatório: Recentemente você se tornou colunista do jornal Folha de São Paulo e, desde então, tem escrito sobre sua linha de pesquisa tendo como referencial teórico a psicanálise tal como proposta por Jacques Lacan. Como você entende a inserção e o papel do psicanalista na mídia jornalística?

Vera Iaconelli: Sou uma psicanalista que foi convidada para ser colunista; mas não sou jornalista como às vezes as pessoas me chamam. Seria absolutamente incorreto. Não tenho formação como jornalista e nem escrevo deste lugar. Tem a ver com uma aspiração pessoal que sempre tive na minha carreira: a de me comunicar com os pais, com os leigos, com os profissionais de outras áreas, médicos. Enfim, sempre me interessou muito que a psicanálise não ficasse entre muros. Que a gente pudesse transmiti-la no público, falar de coisas que tocam o humano em qualquer circunstância e que dizem respeito a todos nós. É claro que, a gente como psicanalista, tem jargões, tem uma linguagem própria, por vezes bem hermética, mas como sujeitos, tentamos nomear uma experiência que todos temos em algum nível. Então, isso sempre me interessou e a Folha acabou sendo um lugar onde adquiriu um alcance muito maior... escrito. Isso me encanta muito.

 

Escutatório: O tema da perinatalidade e parentalidade está sempre presente nos cursos oferecidos pelo Instituto Gerar. Para você, qual a importância de se discutir nos cursos de psicanálise estes temas? 

Vera Iaconelli: O Instituto Gerar começa com questões da Psicanálise, da perinatalidade e da parentalidade e vem ao longo desses vinte anos fazendo esse percurso. Só que esses temas são muito amplos. A Psicanálise é um tema amplo e a perinatalidade também; porque há as adoções, os lutos perinatais, a questão da misogenia, e das identidades de gênero, as questões de políticas públicas de saúde, de instituição. É amplo e estamos fazendo parcerias cada vez mais interessantes com instituições que às vezes não trabalham especificamente com isso, mas que trazem um diálogo que nos encanta e faz a gente crescer muito. 

Sobre a parentalidade, mesmo que você não tenha tido filhos, você é filho de alguém. As análises sempre vão tocar e circundar o tema da origem e do fim. Não tem análise que não passe por essas questões. Então, a parentalidade acaba sendo um lugar em que isso está previlegiado. 

É lógico que não existe, de forma alguma, na psicanálise, espaço para pensar uma especialização. O psicanalista especializado em perinatalidade e parentalidade é uma bobagem. Não é disso que se trata. A gente tem o referencial psicanalítico que é um campo de tratamento e de pesquisa sobre a questão do sujeito, de intervenção, mas temos campos de fenômenos. A perinatalidade e a parentalidade encerram fenômenos. Estudamos o campo de fenômenos sem supor que existiria um sujeito que poderia ser predicado a partir do campo. Sujeito drogadito... não existe isso; existe o sujeito, ponto. Em sua singularidade, atravessado pelas questões culturais...mas existem campos de fenômenos em que a gente tem que saber o que se passa, até para poder estar mais aberto para o que vem do sujeito.

 

Escutatório: Quando os pais de crianças pequenas devem procurar um psicanalista?

Vera Iaconelli: Quando houver sofrimento dos pais e/ou da criança. Um bom psicanalista não começa uma análise prontamente. Primeiro ele fará as entrevistas iniciais, se ele achar que não é o dispositivo analítico que cabe para aquele sofrimento poderá, perfeitamente, encaminhar para outro profissional; ou simplesmente, durante as entrevistas, fazer com que os pais se deem conta disso. Começar uma análise para uma criança é um processo que pode ser muito surpreendente. Tem situações em que você não passa das entrevistas iniciais e os pais já vão - eles próprios - buscar sua análise ou fazer terapia de casal. Nas primeiras consultas pode ocorrer efeitos analíticos e terapêuticos que mudam um processo e criam uma nova demanda. O sofrimento na forma do enigma do sintoma é o que será o norte para os psicanalistas.

 

Escutatório: Qual a importância da escuta de gestantes através da clínica social de atendimento do Instituto Gerar?

Vera Iaconelli: Coordenamos uma clínica social que atende sujeitos em situações diversas. Temos pesquisas que se debruçam sobre o entendimento desse campo que passa pelo ciclo gravídico e puerperal, mas também pelo campo das adoções e das perdas puerperais.

Quando oferecemos esse tipo de atendimento descobrimos, a partir do estudo desse campo, a presença da pobreza do apoio social para essa população. As mulheres são o final da cadeia alimentar; ou seja, elas vêm depois dos seus bebês, são tratadas com menos importância que os próprios filhos. A mulher negra e pobre então, nem se fala! Essas mulheres muitas vezes estão numa tarefa hercúlea de criar uma criança numa situação péssima e no Instituto Gerar criamos um espaço para escutá-las; mulheres e homens que estão lidando com a tarefa imensa da perinatalidade e, também, nos casos de adoção.

Nesse processo, vamos descobrindo a falta de assistência e, ao mesmo tempo, grande exigência de que essas pessoas estariam, ou deveriam, estar aptas a cuidar de um outro numa condição de muita precariedade.  Tem todo o discurso de construção de vínculo... Nós, do Instituto Gerar, entendemos que a formação de vínculo é algo que pode acontecer ou não, mas as condições sociais devem ser dadas também para garantir que o sujeito possa se ocupar disso. Ocupar-se do vínculo sem se sentir ameaçado na sua integridade moral e física. É claro que existem pessoas em situação psíquica desfavorável para levar uma função parental adiante. Trabalhamos com todo esse campo também, mas é surpreendente como diante de uma situação tão complexa, no exercício da função parental, as pessoas são totalmente demandadas sem receber apoio.

É isso que o Instituto tenta oferecer. Além do apoio pontual a fulano e sicrano, a gente propõe a discussão desses temas e faz pesquisas para trazer a público o que a gente, enquanto sociedade e coletividade, têm feito com as mães e os pais: pessoas que se dispõem a criar outros humanos.


 

 

Entre-vistas com Mario Eduardo Costa Pereira

Apresentamos hoje aos nossos leitores a entrevista realizada com o psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Pereira. A seção "ENTRE-VISTAS"  do site Escutatório consiste em uma série de postagens com perguntas aos profissionais que apresentam um percurso pela psicanálise e, através de seus posicionamentos acerca de questões atuais, nos convidam a refletir e a (des)construir saberes. Lembramos que as respostas se referem ao modo de pensar do convidado sobre o tema proposto por nós. 

Esperamos que as "entre-vistas" possam inspirar e suscitar questões para além das que foram colocadas para nosso convidado. Desde já agradecemos ao Mario Eduardo pela disponibilidade em participar deste projeto.  

Boa leitura a todos! 


Mario Eduardo Costa Pereira é psicanalista, psiquiatra, professor titular de Psicopatologia Clínica pela Aix-Marseille Université (França). Professor livre-docente em Psicopatologia do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, onde dirige o Laboratório de Psicopatologia: Sujeito e Singularidade (LaPSuS). Diretor do Núcleo de São Paulo do Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise.

Mario Eduardo Costa Pereira é psicanalista, psiquiatra, professor titular de Psicopatologia Clínica pela Aix-Marseille Université (França). Professor livre-docente em Psicopatologia do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, onde dirige o Laboratório de Psicopatologia: Sujeito e Singularidade (LaPSuS). Diretor do Núcleo de São Paulo do Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise.

Escutatório: Como foi seu encontro com a psicanálise?

Mario Eduardo: Meu primeiro contato com a psicanálise foi bem precoce. Eu tinha em torno de 17-18 anos quando iniciei minha primeira análise pessoal, mais ou menos na mesma época em que havia sido aprovado no vestibular para a faculdade de medicina, em Porto Alegre. Essa associação análise pessoal + experiência de formação médica teve um efeito decisivo sobre mim. Naquela época, no Rio Grande do Sul, os cursos de Medicina - e a especialidade de Psiquiatria em particular - eram muito marcados pela Psicanálise, especialmente a de orientação kleiniana. Assim, já na disciplina de psiquiatria, que se desenrolava do terceiro ao sexto anos, estudávamos os conceitos básicos da psicanálise, a obra da Melanie Klein, os textos de Freud e alguns autores da psicologia médica. Um outro fato decisivo em meu percurso foi que no terceiro ano da faculdade fui convidado por meu professor de psiquiatria, o Dr. Manoel Albuquerque, para fazer parte da equipe de acompanhantes terapêuticos (AT) de sua clínica particular, que à época era provavelmente a maior do estado e uma referência no sul do país. Assim, durante a maior parte da faculdade - terceiro, quarto, quinto e sexto  anos - pude acompanhar pacientes psiquiátricos nos aspectos mais pessoais e quotidianos de suas vidas. Em geral, eram pacientes graves, internados por situações psiquiátricas das mais diferentes naturezas: psicóticos, esquizofrênicos, indivíduos com transtornos afetivos, pessoas com dependência de substâncias psicoativas. Isso me deu ocasião para conviver de maneira muito próxima com a vida concreta desses sujeitos, com seus sofrimentos, com seus sintomas, com seus esforços para melhorar. Tinha contato direto com suas famílias, percebia diretamente suas interações com o paciente. Viajei com muitos deles, estive em suas casas, em uma relação direta, muito próxima, muito íntima, com pessoas que passavam por estados de perturbação mental extremamente intensos. 

Esse trabalho era feito com supervisão sistemática, semanal. Tínhamos uma equipe de ATs muito dinâmica, dirigida por supervisores autenticamente implicados com esse tipo de trabalho e muito competentes. Íamos, também, com uma certa frequência fazer supervisão em Buenos Aires, pois os argentinos tinham já uma larga experiência de acompanhamento terapêutico de orientação psicanalítica. Isso foi uma coisa muito forte para nossa formação. 

No sexto ano e último ano da faculdade, fiz meu estágio final de psiquiatria no Hospital São Pedro - um grande hospital psiquiátrico  de Porto Alegre – mais especificamente na divisão psiquiátrica Melanie Klein, ligada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Seu diretor era o professor David Zimmermann, um grande psiquiatra e psicanalista gaúcho, que havia sido por duas ocasiões vice-presidente mundial da IPA (International Psychoanalytical Association) e criador, em Porto Alegre, do Curso de Especialização em Psiquiatria, de clara orientação psicanalítica e referência nacional na área.

A equipe de docentes daquele estágio era constituída quase integralmente por psiquiatras com formação psicanalítica. Dessa forma, minha entrada na psiquiatria deu-se através de uma perspectiva psicanalítica, o que a meus olhos parecia totalmente evidente e natural. Tudo isso foi decisivo em minha formação. Meu primeiro contato com a psicanálise se deu, portanto, de uma maneira muito viva, muito concreta, com minha análise pessoal, com um contato clínico intenso com pacientes psiquiátricos graves e com a participação em grupos de estudo de psiquiatria e psicanálise, na faculdade e fora dela. Minha análise pessoal, iniciada ainda bem jovem, me colocava em contato comigo mesmo e com a experiência da descoberta do próprio desejo, da responsabilização por ele. Era uma descoberta precoce e concreta da potência da transferência e do que significa eticamente, pessoalmente, a busca da própria verdade.

 

Escutatório: Na sua opinião, quando é indicado procurar um psiquiatra e quando e indicado procurar um analista?

Mario Eduardo: Considero que uma pessoa deve procurar um psiquiatra quando a intensidade dos seus sintomas, ou mesmo sua natureza, sejam tais que o sujeito sofre de uma maneira intensa, mas que isso não o conduz a nada, a não ser à dor, ao desespero e a risco de passagens ao ato graves e de consequências potencialmente irreversíveis. Não é um sofrimento que o leva a se interrogar, a produzir alguma forma de busca a respeito de si mesmo, da sua verdade, da sua participação no seu próprio sofrimento, ou seja, quando o sintoma gira em círculos, paralisa; quando a pessoa sofre muito, mas sem retirar nada de produtivo desse sofrimento.  

É interessante lembrar o papel que originalmente se atribuía aos psicofármacos ainda nos anos 50. Nessa época, quando na França e na Suíça começaram os estudos com as primeiras drogas que fizeram a revolução psicofarmacológica - a clorpromazina (antipsicótico) e a imipramina (antidepressivo) - os pesquisadores e teóricos que buscavam desenvolver modelos para a aplicação clínica dessas drogas nunca pensaram que os psicofármacos constituiriam por si próprios o elemento central do tratamento do transtorno mental. De maneira prudente, eles consideravam que a psicofarmacologia deveria ser vista como um tratamento que permitiria colocar o sujeito em condições mentais de se interrogar a respeito de si mesmo, a respeito do seu sofrimento, a respeito de seus impasses, ou seja, os tratamentos psicofarmacológicos psiquiátricos eram concebidos como auxiliares importantes para que outros tipos de abordagem psicossocial, psicoterápica, e mesmo psicanalítica, pudessem ser instaladas de maneira efetiva. 

A clínica psicanalítica, num sentido mais estrito, é de uma outra ordem. Ela surge quando o sujeito sofre, quando o sujeito se vê em um impasse da própria vida e, de alguma maneira, pede ajuda, deixando uma porta aberta para uma interrogação a respeito da sua própria verdade, que está se manifestando de uma maneira que não está muito clara para ele, através daquele sintoma, através do sofrimento. E um encontro transferencial com um psicanalista produz nele esse efeito de se interrogar ainda mais profundamente sobre a verdade daquilo que está acontecendo com ele. A presença do analista o interpela profundamente  sobre “isso” que desconheço de mim, mas que desesperadamente tenta se manifestar da forma que consegue, ou seja, através do sintoma, do sofrimento, do impasse, dos sonhos, através, enfim, de tudo aquilo que o seu padecimento começa a revelar de si mesmo a si mesmo, enquanto sujeito de um desejo inconsciente.

 

Escutatório: Como você entende a função social da psicanálise em tempos de biopolítica e medicalização da vida?

Mario Eduardo: Eu considero que diante da maciça medicalização da vida contemporânea, diante da presença do biopoder incarnado não apenas na medicina, mas sobretudo como ideologias e práticas diretrizes da vida quotidiana, é claro que a psicanálise tem uma importância política muito grande, enquanto ator significativo no laço social; tanto de interpelação, de denúncia, de debate, de abertura. Mas eu diria que o mais importante de tudo é que a psicanálise precisa conseguir permanecer como resto insolúvel em face às promessas de completude oferecidas pelo espirito de nosso tempo, instalando-se, portanto, como fonte de transferência. Ou seja, é justamente naqueles momentos de impasse, de crise, nos quais o sujeito vê-se fracassar em seus esforços para se definir integralmente através do discurso da ciência, do discurso médico, do discurso psiquiátrico, através do discursos dos ideais sociais, que ele pode perceber que existe nele algo de mais fundamental, que o interpela profundamente quanto a sua fidelidade a seu próprio desejo. Isso produz efeitos, produz sintomas, produz interpelação, produz questionamentos sobre si mesmo e o sobre o mundo em que se está instalado. 

A psicanálise pode e deve garantir esse suporte para o aprofundamento da interrogação que o sujeito faz sobre si mesmo, na medida em que se sustenta como resto que não se deixa dissolver, que não se deixa digerir pelos ideais de adaptação social, de bem-estar, de gozo completo e absoluto, de diminuição de riscos, de uma vida realizada enquanto excitação, que é sempre uma espécie de busca constante de uma satisfação plena. A psicanálise deve ser capaz de acolher, mas também de interpelar, o sujeito naquilo que este tem de clivagem, naquilo que “a outra cena” tenta se revelar, se expressar e que pode encontrar na situação analítica, na transferência proposta pela presença do psicanalista - tanto na clinica, quanto na cultura - um lugar ao qual endereçar essa sua busca pela verdade, a partir de um real que em si mesmo não se deixa dissolver e diluir nessas propostas de uma solução definitiva para a dor de viver, que são feitas pela medicalização da vida e pelos ideais de uma realização de vida plena propostos pelo laço social contemporâneo.

 

Escutatório: Em seu livro Pânico e Desamparo (ed. Escuta, 1999) você estabelece uma relação íntima entre linguagem e o desamparo. Poderia falar um pouco mais sobre isso?

Mario Eduardo: No meu livro Pânico e Desamparo (ed. Escuta, 1999), eu desenvolvo a ideia de que o desamparo é a dimensão fundamental do sujeito. E que esta, em si mesma, não é um mal; é simplesmente  uma condição de falta de garantias e de uma abertura para uma existência para a qual não existe uma definição a priori do caminho a ser tomado, nem uma garantia transcendental do destino a dar para nossas pulsões e fantasias. E que nos interpela com essa abertura à liberdade, ao risco, à responsabilidade que temos que assumir por nossos atos. Diante disso, ao descobrir subitamente a radicalidade dessa falta de garantias, de não contar com uma instância superior que oriente a priori suas tomadas de posição enquanto sujeito, o sujeito pode se desesperar e entrar em pânico face a essa tão insuportável revelação. Paradoxalmente, esse desespero não deixa de ser uma espécie de interpelação para que alguém venha a consistir, a ocupar esse lugar vazio de fiador absoluto de nossa existência. 

Não é à toa que a direção do tratamento é aquela que conduz o sujeito ao contato com seu próprio desamparo, mas de uma maneira tal que essa descoberta possa ser tolerada, subjetivada e investida de um sentido erótico. É somente assim que o sujeito poderá vir a amar essa falta de chão, porque esta é justamente o espaço de liberdade que lhe permite tanto existir como sujeito de seu próprio desejo, quanto se responsabilizar por sua posição desejante singular. Uma análise deve permitir que o sujeito se defronte, sem garantias e sem álibis, com as marcas de seus traumatismos fundamentais, de modo que possa delas se apropriar e se instalar como sujeito de desejo. O fato de não ter uma garantia superior e transcendental deve, assim, constituir necessariamente uma razão de desespero. Ao contrário, essa é a condição para que ele possa ser sujeito tanto da sua própria existência, como da sua inscrição no laço social com os outros.

E a linguagem é justamente a condição que nos instala em nossos corpos, no mundo, no interior do um laço social com os outros. Ela é esse próprio campo de abertura e de possibilidade, de criação, de gestão simbólica e erótica da nossa incompletude. Em outras palavras, a linguagem é ao mesmo tempo aquilo que revela nossa incompletude, mas, ao mesmo tempo, a  possibilidade de construirmos por nossa própria conta, nossa instalação no mundo. A psicanálise mostra que o desamparo constitui a um só tempo nossa referência ética para existir e a nossa pauta poética de constituição de nós mesmos. Nossa única possibilidade de instalação erótica e responsável na vida, enquanto necessidade constante de criação e de convívio com os outros.

 

Entre-vistas com Ana Laura Prates Pacheco

Hoje o Escutatório inicia uma nova seção no site chamada "Entre-vistas" que consiste em uma série de diálogos com profissionais que apresentam um percurso importante pela psicanálise e, através de seus posicionamentos acerca de questões atuais, nos convidam a refletir e a (des)construir saberes. Lembramos que as respostas se referem ao modo de pensar do convidado sobre o tema proposto por nós. 

Esperamos que as "entre-vistas" possam inspirar e suscitar questões para além das que foram colocadas para nossa convidada. Desde já agradecemos a Ana Laura pela disponibilidade em participar deste projeto.  Boa leitura a todos! 

Ana Laura Prates Pacheco é Psicanalista, Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela USP (IPUSP). Pós-Doutora em Psicanálise pela UERJ. Pesquisadora convidada do LABEURN, UNICAMP. É AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Fórum de São Paulo, da qual é fundadora. Participou do Secretariado do Passe no Brasil (2008-2010) e foi Diretora da EPFCL-Brasil (2010-2012). Atualmente é representante do Brasil no Colégiado de Representantes da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano. Foi editora da revista Stylus (2008-2010). É coordenadora da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância das Formações Clínicas do Campo Lacaniano, além de transmitir em seus próprios Seminários. É autora, dentre outros, de: "Feminilidade e experiência psicanalítica"(Haker, 2001), de “De la fantasía de infancia a lo infantil de la fantasía” (Letra Viva, 2012) e “Da fantasia de infância ao intanfil na fantasil” (Annablume, 2012) e “La letra de la carta al nudo” (Um-decir, Asociacion Foro del Campo Lacaniano de Medellin, 2015). E-mail:  analauraprates@terra.com.br

Ana Laura Prates Pacheco é Psicanalista, Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela USP (IPUSP). Pós-Doutora em Psicanálise pela UERJ. Pesquisadora convidada do LABEURN, UNICAMP. É AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Fórum de São Paulo, da qual é fundadora. Participou do Secretariado do Passe no Brasil (2008-2010) e foi Diretora da EPFCL-Brasil (2010-2012). Atualmente é representante do Brasil no Colégiado de Representantes da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano. Foi editora da revista Stylus (2008-2010). É coordenadora da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância das Formações Clínicas do Campo Lacaniano, além de transmitir em seus próprios Seminários. É autora, dentre outros, de: "Feminilidade e experiência psicanalítica"(Haker, 2001), de “De la fantasía de infancia a lo infantil de la fantasía” (Letra Viva, 2012) e “Da fantasia de infância ao intanfil na fantasil” (Annablume, 2012) e “La letra de la carta al nudo” (Um-decir, Asociacion Foro del Campo Lacaniano de Medellin, 2015).
E-mail: analauraprates@terra.com.br

Escutatório: Como foi seu encontro com a Psicanálise?

Ana Laura: Meu encontro com a Psicanálise foi ainda na infância, por volta de uns 5 anos de idade. Morávamos em uma cidade do interior de São Paulo e minha mãe, que era professora de filosofia na UNESP, ia toda semana fazer análise em Ribeirão Preto. Uma vez ela me disse que ia me levar para conversar com seu analista, uma ideia que me pareceu muito bem vinda! Fiquei bastante ansiosa, esperando o dia do encontro. Na estrada eu já imaginava a sessão de análise que faria... O curioso é que pensava em falar mesmo, e não em brincar ou desenhar. Fiquei na sala de espera enquanto minha mãe fazia sua sessão, e quando ela saiu me disse que o analista tinha achado melhor não me escutar. Não faço a menor ideia do que possa ter acontecido, mas sei que essa sessão que na houve inaugurou minha relação com o inconsciente. Aos 16 anos, finalmente iniciei uma terapia em dupla – eu e minha melhor amiga. Algo um tanto inusitado. Decidi cursar Psicologia para ser Psicanalista. Interessava-me, sobretudo, a clínica com crianças. Mas os primeiros contatos com a Psicanálise na faculdade, em meados dos anos 80 foram um tanto decepcionantes. Até que comecei a atender, e iniciei uma análise, ainda não lacaniana. Fizemos um grupo de supervisão muito interessante com a falecida professora Jussara Brauer, a partir do qual vários projetos foram realizados (até hoje alguns de nós temos consultório juntos). Quase ao mesmo tempo, iniciamos um grupo de estudos de Freud com o Alejandro Viviani, que foi muito importante, e em seguida o encontro decisivo com o também falecido professor Luis Carlos Nogueira, com quem aprendi as primeiras lições de Lacan. A partir daí foi inevitável iniciar uma análise lacaniana. Meu encontro com a Psicanálise, como podem notar, foi causado por um curioso e precoce encontro faltoso que me marcou...

Escutatório: O que você entende por escuta analítica?

Ana Laura: Perguntinha difícil, hein?! Eu sempre brinco que a Psicanálise é um patrimônio cultural da humanidade. Pensei em dizer um patrimônio imaterial, mas acho que não, é um patrimônio material mesmo: a materialidade do significante, naquilo que ele porta de equívoco, e a materialidade da letra, em sua estrutura de rasura e marca. A escuta analítica é algo muito peculiar, sui generis, porque é uma escuta que produz uma letra, com a qual se pode escrever algo novo na vida. Gosto muito dessa imagem que Lacan usa, sobre a escuta analítica tratar-se de um forçamento, um forçamento através do qual é possível fazer ressoar outra coisa que não o sentido comum. Não canso de me surpreender com essa incrível disposição de Freud em operar com a linguagem, criando uma nova razão – um novo discurso, se preferirem – ou, se não cria-lo – já que temos notícias de que Sócrates já operava com ele – ao menos transforma-lo em uma experiência clínica inédita na Modernidade. Essa possibilidade de manipular a ocorrência transferencial de modo a extrair desse laço social inusitado algo tão original como um desejo decido, o consentimento a um modo de gozo e um novo amor, é algo sensacional! Escutar o outro, nas mais diversas esferas é reconhecidamente algo importante e transformador. Não é a toa que vocês criaram esse neologismo tão bem vindo: Escutatório. Mas a escuta analítica tem algumas peculiaridades, não é? Essa deformação do ouvido ocorre no divã, e graças a essa experiência sua afinação é dissonante.  Tal como o poeta, nós nos deixamos levar pelo duplo sentido, pela polifonia, pelo caráter estrangeiro de toda língua, pelas imagens sonoras e assim podemos operar com o inconsciente. É como entendo o uso que Lacan faz da palavra francesa antiga dupes. A escuta analítica deve ser dupes. Ser dupes é “cair como um patinho”, ou seja, se deixar levar pelas variações entre sons e sentidos que compões a língua, e porque não reconhecer, lalíngua.

Escutatório: É possível tecer relações entre a materialidade citada com as manifestações corporais que compõem o sintoma de cada sujeito?

Ana Laura: Sim, é possível tecer essas relações, mas para tanto seria preciso um longo desenvolvimento teórico. Lembremos que Lacan, na década de cinquenta, articula o sintoma com a estrutura da metáfora. É o que permite, aliás, sua decifração a partir da interpretação, visando a construção e o atravessamento da fantasia fundamental. Mas sabemos que nos anos setenta, Lacan define o sintoma como acontecimento no corpo. Aqui, não se trata do corpo enquanto imagem, mas do corpo enquanto aquilo de que se goza. São noções clínicas e teóricas bastante complexas. O sintoma enquanto marca de gozo singular tem íntima relação com a letra, que é um conceito exterior à Psicanálise, mas que interessa a Lacan justamente por portar uma fixação e uma identidade diferente do significante. Embora a letra seja uma criação do significante, ela é idêntica a si mesma. Daí Lacan propor essa homologia do sintoma com a letra, na escrita do enodamento dos registros do Real, do Simbólico e do Imaginário. É claro que para desenvolver esse ponto seria ainda necessário distinguir as ocorrências corporais nos diferentes tipos clínicos: o fenômeno psicossomático, a somatização na neurose obsessiva, a conversão na histeria e assim por diante.

Escutatório: Como você vê os processos de singularização e subjetivação na atualidade?

Ana Laura: Não sei se entendi bem a pergunta, mas vou tentar interpreta-la... Penso que a questão da singularidade é estrutural no falasser – neologismo inventado por Lacan para falar desse pleonasmo, já que só há ser da fala. Então temos sempre as três dimensões: o universal da linguagem que nos causa, e que chamamos sujeito desejante; o modo particular como cada sujeito entra na linguagem e inventa sua fantasia, seu delírio ou seu fetiche; e a singularidade da inscrição sem par que nos torna únicos e, até certo ponto, incomunicáveis no que diz respeito ao gozo, e que chamamos de sintoma – ou sinthoma como preferem alguns. Algumas experiências humanas permitem, para além das tradições e das identificações, acessar essa singularidade. Certos artistas, certos amantes, ou algumas vivências de limite absoluto. E essa é também a promessa da experiência analítica, que o faz, entretanto, de um modo inédito. O que acontece é que os psicanalistas precisam estar à altura dessa promessa. Bem, isso posto entendo que o que vocês estão chamando de subjetivação é algo que inclui outra variável que é a história e, portanto, inclui os efeitos da passagem do tempo. Como a estrutura se manifesta em diferentes momentos históricos e, por outro lado, como as coordenadas de certos momentos históricos afetam a própria estrutura. Pensando nisso, Lacan inventou os discursos, que escrevem laços sociais que predominam em um dado momento histórico. Mas como podemos falar sobre os processos de subjetivação – como vocês mencionaram – de nossa época, da atualidade, como disseram. Lacan recomendou aos psicanalistas que renunciassem a essa prática aqueles que não alcançassem em seu horizonte a subjetividade de sua época. É um grande desafio e um paradoxo, pois nunca alcançamos o horizonte... A atualidade nos escapa a cada segundo, e não estamos imunes aos seus efeitos. Mas talvez eu possa dizer que, mais sério do que a espetacularização, tão bem descrita por Débord, o que me preocupa é a aceleração sem precedentes provocada pela aliança entre o capitalismo de consumo e o discurso cientificista. Suspeito que a bizarra epidemia atual de “autismo” tenha a ver com isso. A ver...

Escutatório: Você poderia falar um pouco mais sobre essa relação entre o capitalismo de consumo e o discurso cientificista com a epidemia de "autismo" e se ela também se aplica a outros diagnósticos?

Ana Laura: Esse foi um tema que eu trabalhei há alguns anos atrás, estimulada pela participação da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo no Movimento Psicanálise Autismo e Saúde Pública. Eu me perguntava por que o “autismo” é a bola da vez. Gosto de colocar “autismo” entre aspas devido à imprecisão cada vez mais patente desse diagnóstico. O “autismo” ou o seu “espectro” é epidêmico, como atualmente se constata na saúde pública, dada a ampliação dos fenômenos clínicos que podem ser incluídos nessa categoria.  Meus argumentos estão em um texto que foi publicado da revista A PESTE vol4 n2. Autismo e Segregação. A categoria clínica “autista” hiperboliza a série de paradoxos apresentadas pelo binômio hipermoderno segregação-concentração. Se o autista se auto exclui, justamente por recusar a entrada no Discurso do Mestre enquanto discurso da estrutura, a neuropsiquiatria do capitalismo avançado o concentra no universo da genética, e tenta proibir-lhe a psicanálise. Em tempos de infância generalizada, portanto, não nos surpreende que as questões relativas à infância estejam na ordem do dia e, mas especificamente, as crianças autistas. Talvez fosse o caso de nos perguntarmos se não estaríamos todos concentrados em uma mesma “doença da libido”, para usar uma expressão de Colette Soler. A resposta do psicanalista, entretanto, não está nem do lado da segregação nem do lado da concentração, na medida em que faz valer um discurso que sustenta a singularidade e a diferença absoluta.

Escutatório: Qual a função do analista nos debates das questões da polis?

Ana Laura: Sei que minha posição quanto a essa questão está bem longe ser unânime, mas considero que o analista tem uma função crucial nos debates das questões da polis. A ideia do Psicanalista enclausurado nas quatro paredes do consultório me parece incoerente com a história do movimento psicanalítico, desde Freud. O analista, em sua experiência clínica, tem a oportunidade de entrar em contato com as formações do inconsciente e com os modos de gozo; e isso permite o acesso a um saber muito específico sobre os laços sociais. O analista escuta, mas a posteriori pode ter voz e tomar a palavra. Aliás, é sua responsabilidade! Cabe a ele transmitir, amplificar isso que se recolhe em sua experiência, como fazemos quando falamos no megafone, em uma manifestação, ou no jogral das manifestações secundaristas atuais. O saber que a Psicanálise produziu sobre os laços pode ser de grande valia para a construção coletiva de um amor mais digno e de uma sociedade mais justa. O discurso do analista é incompatível ao fascismo e ao discurso do capitalista. Isso é estrutural, queiram ou não os psicanalistas mais conservadores. 

 


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