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A escrita e seus efeitos

"Na cura analítica, a gente tenta apreender, para além da prosa, as palavras que são verdadeiramente as do sujeito, as palavras que o constituíram e eu chamo de 'o poema de cada um'. E, quando o sujeito encontra esse poema, ele pode dar continuidade ao mesmo. O que nós temos de melhor são as palavras do poema que nos criou (...)" (Fragmento da entrevista de Alain Didier-Weill a Betty Milan)

Tenho interesse em escrever sobre a escrita, pois é uma experiência que me capturou desde muito cedo. Na mais tenra idade, minha mãe, uma apaixonada pela leitura, me apresentou aos mais diversos tipos de escrita: dos livros infantis, às aventuras de Sidney Sheldon e obras literárias brasileiras em coleções clássicas de Machado de Assis, Aluízio Azevedo, Lima Barreto, Eça de Queiroz, Joaquim Manual de Macedo, dentre tantos! Esses últimos eram livros belíssimos, a começar pelas capas caprichosas, com letras em relevo e que convidavam à leitura. 

Talvez, a partir desta experiência tão marcante com a leitura, fui capturada pela escrita. Sempre me envolveu o processo de criação das histórias, as ricas descrições e a escolha de palavras. Com certa idade decidi que seria escritora. Não me tornei a escritora de minha fantasia, cultivada na infância, mas não me deixo afastar completamente dela.

Mas, o que seria um escritor? Freud, no texto “O escritor e a fantasia” (1908), o equipara a uma criança quando brinca: “constrói um mundo de fantasias que leva bastante a sério, ou seja, dota de grandes montantes de afeto, ao mesmo tempo que o separa claramente da realidade” (p. 327). O escritor é aquele que, nas entrelinhas do seu texto, faz a travessia do imaginário pro simbólico, inscreve sua subjetividade e seu desejo. Ainda que a produção não seja um obra original, o sujeito comparece na escolha do material e nos “grifos nossos” que sinalizam suas marcas no texto.

Como nos apontou Freud, o processo da escrita enquanto registro gráfico e sua condição de endereçamento mobiliza "montantes de afeto". A partir dessa afetação, me vem o mal-estar vivenciado por alguns, e me incluo nesses, ao tentar iniciar a escrita de um texto. Aquela sensação de não encontrar as palavras para começar, delimitar um tema ou mesmo colocar um ponto final. Esse mal-estar representado pela angústia, traz a dimensão da rememoração para o escritor, enquanto sujeito: a construção de um texto implica em escolher e comunicar uma coisa e não outra; há um confronto com uma perda inerente à escolha de palavras, de ideias e com a falta estrutural de não dar conta de (dizer) tudo. Há um confronto com a própria castração*, com sua divisão psíquica,  incompletude e submissão às leis da linguagem.

A escrita enquanto costura simbólica, situa-se, portanto, enquanto operação psíquica submetida ao sujeito faltoso que escreve, faz barra ao imaginário e aponta para a impossibilidade do todo. Pode-se pensar, então, que em um texto há um não-dito; há um dito não-todo. Sustentar uma escrita não se dá sem um efeito psíquico. Eis que, ali no papel, também há subjetividade e escuta.

Em alguns contextos, a escrita não cabe em primeira pessoa. Prefere-se que o sujeito seja oculto, implícito, indeterminado ou sem sujeito. Há um apagamento subjetivo de quem escreve. Para a teoria psicanalítica, o sujeito é e-feito da linguagem, então como produzi-la de forma escrita desconsiderando o próprio sujeito? Subvertendo essa lógica, a Psicanálise convoca o sujeito a se manifestar nas mais diversas formas de linguagem e a escrita é uma delas. Se deparar com o “não-saber” todo, com a convocação de falar em nome próprio e se implicar com o "não-dizer" tudo são efeitos produzidos no sujeito a partir da escrita. Então, o que se produz quando se escreve um texto? Produz-se e-feitos e a Psicanálise é um deles.

O mecanismo da escrita testemunhou a invenção da própria Psicanálise, registrada nas correspondências trocadas entre Freud e Wilhelm Fliess entre os anos de 1887 a 1904, e o seguimento de seu percurso a partir dos "Os Escritos" (1998) e "Outros Escritos" (2003), registros de Lacan. Porém, a questão da escrita para Psicanálise não está apenas enquanto formato de comunicação e transmissão da teoria, mas no fato de pensar a escrita enquanto meio de presentificação do sujeito, sua implicação com seu desejo, suas construções particulares e seus efeitos.

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* O complexo de castração, o qual todos os sujeitos (neuróticos) estão submetidos, é um conceito, inicialmente, proposto por Freud em “Sobre as teorias sexuais das crianças" (1908) e relido por Lacan ao longo de sua obra enquanto importante operação para inserção do sujeito na linguagem, na lei e na cultura.

A Educação, os laços e a Psicanálise

 Por Carolina Escobar

 

Há algumas semanas alguns de meus colegas do ensino fundamental criaram um grupo virtual na tentativa de nos reunir 16 anos depois. Emoções, lembranças e constrangimentos à parte (rs), foi uma situação que me fez pensar que a escola é um dos lugares mais importantes para a construção de laços – com os colegas, com a cultura, com o que o cerca. É também lugar de vivenciar desencontros e dificuldades, que são tão importantes quantos os laços formados.  

As queixas escolares são frequentes demandas para os psicanalistas, mas confesso que tenho especial atenção àquelas que têm a ver com a aquisição da leitura e escrita. Há algo na queixa dessas crianças e adolescentes que intriga os familiares, os educadores e até eles mesmos. Alguns apresentam questões que se cronificam de tal forma que se tornam marcas determinantes na maneira que a criança estabelece relações com toda sua vida. 

Como o mundo se torna grande e incrível quando passamos a olhar as grafias  que o compõe e lê-las! Compreender a mensagem talhada no papel transforma todas as coisas. E ser capaz de talhar algumas também, deixar marcas, comunicar-se, então? Quanta potência! Quais os efeitos subjetivos nas dificuldades de adquiri-la?

Recentemente retornei à textos freudianos que há muito não tinha contato. Mais uma vez me surpreendi com a atualidade e, principalmente, com a radicalidade do pensamento que Sigmund Freud construiu e nos presenteou. Apesar de não ser o único momento em que ele levanta questões para pensar a relação da psicanálise com a educação, é em texto que encontro elementos que me fizeram pensar. 

Em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) – um dos meus textos favoritos de Freud – encontramos uma das contribuições freudianas mais marcantes: a sexualidade começa na infância. Com esta afirmação, Freud desloca a questão da sexualidade da noção biológica ligada à reprodução, ideia vigente até então. Para ele sexualidade não se resume ao sexo (ato sexual). 

Sexualidade é o que coloca duas pessoas em relação, que possibilita a criação de laços e vínculos que nos diferenciam dos animais.

Tais vínculos são criados pelo corpo, mais especificamente por alguns pedaços dele; aqueles que também possibilitam uma demarcação de dentro e fora para nós mesmos: a boca (por onde nos alimentamos e exploramos o mundo desde muito pequenos), o ânus (lugar de nosso corpo que expele restos que podem ser presentes – “olha o que eu fiz mamãe! Dá tchau para ele!”), os genitais (que, em algum momento, compreendemos ser marcados por representações culturais que nos interrogam sobre o que somos/desejamos ser); e também o olhar (como o que dará notícias do interesse e/ou do desagrado de quem nos relacionamos). Ou seja, as relações se apoiam no corpo (pulsional) para serem estabelecidas.

Mas o que isso teria a ver com a educação e , mais especificamente, com a aquisição da leitura e escrita? 

Me lembro do caso de um pessoa no início da adolescência que, até então, não sabia ler nem escrever. Chega até mim com o encaminhamento de seu médico quando nenhum exame (da bateria realizada) apresentava resultados que justificassem a não apreensão da leitura e escrita. Não parecia um adolescente, mas sim uma pessoa muito mais jovem; em dias de muito calor, a mudança hormonal se fazia presente nos cheiros que invadiam a sala de atendimento sem que, aparentemente, percebesse. Em uma das sessões diz “Se conseguir ler e escrever, vou crescer. Como olhariam para mim? Como eu olharia para mim?”.

Ou então quando outra pessoa contava, muito angustiada, do medo que estava sentindo em não passar em uma prova muito importante em sua vida e se recorda de ter sido a única pessoa de sua classe que demorou para ser alfabetizada; “Lembro que sentia tanto medo de não conseguir aprender que evitava ao máximo chegar perto de um lápis; dizia para meus pais que não esperassem isso de mim, apesar de que acho que o que eu queria mesmo era que gostassem de mim apesar daquela merda toda”. 

Nestes fragmentos (e em tantos outros), a aquisição da leitura e escrita representa algo no laço com o outro e é esta uma das contribuições dos psicanalistas no que tange à estas queixas. Freud já dizia “Nós (…) temos todos os motivos para dedicar interesse a esses fenômenos temidos pelos educadores, pois deles esperamos obter esclarecimentos sobre a configuração original da pulsão sexual” (1905, p.82).

Bem, de volta ao (re)encontro com o ensino fundamental: mal posso esperar!

Sobre a formação do analista


Por Maiara Marques


“A psicanálise se transmite de duas maneiras, em dois lugares diferentes: de um lado, na experiência dessa prática que é a relação entre um analista e um analisando; de outro, em sua presença na vida pública segundo estas três modalidades: a teoria, as instituições ditas psicanalíticas e as relações que os psicanalistas mantêm com a sociedade civil em que vivem. Um dentro e um fora”.

Philippe Julien

Escolho compartilhar com vocês, em meu primeiro texto da coluna, a reflexão que faço e, pela qual sou afetada, sobre a formação do psicanalista. O tema me desperta interesse, pois estou enviesada por esse percurso de formação.

Uma das coisas que sou mais questionada quando menciono que faço formação em Psicanálise é como funciona e quanto tempo dura essa formação. Geralmente começo expondo que esta é proposta por Freud (1919) enquanto tripé: análise pessoal, estudo da teoria psicanalítica e supervisão da clínica do analista em formação, sob a orientação dos psicanalistas mais reconhecidos. Continuo explicando que o tempo dessa formação é permanente, e que o processo de se autorizar analista obedece a um tempo subjetivo e que passa, como nos orienta Freud em “A questão da análise leiga” (1926), pela análise pessoal e não só pela teoria.

Apresento ainda que Lacan, na Proposição de 9 de julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola, traz o pensamento que “o analista se autoriza por si mesmo e por alguns outros”. Esse processo também é amparado por uma instituiçãode formação, dispositivo onde um saber não-todo é compartilhado e onde se dá a transmissão de Psicanálise. Quase que imediatamente noto a expressão de estranhamento e inquietação em quem me ouve. Observo que a proposta da Psicanálise vai de encontro aos ditames sociais de obediência ao tempo e à necessidade imediatista de titulação. A formação é subversiva, marcada não por regras regulamentadoras, mas por uma ética própria da Psicanálise, a ética da escuta ao sujeito do inconsciente.

Para pensar a formação do analista recorri a algumas leituras, dentre elas: “A questão da análise leiga” (1926), “Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades?” (1919), “Análise terminável e interminável” (1937) e às contribuições de outros colegas psicanalistas na obra “Lacan e a formação do psicanalista” (2006). A partir dessas, fui instigada a pensar a formação do analista a partir da ética psicanalítica e não de uma regulamentação, bem como que a formação não está relacionada ao ensino nas universidades, cursos de especialização ou mestrados.

Em “Ofício do psicanalista: formação vs. Regulamentação” Albertini (2009) conduz um levantamento histórico e uma discussão acerca das diversas tentativas de regulamentação da prática psicanalítica, assim como as divergências entre as escolas e instituições de formação. Observo que nem a própria Psicanálise fugiu de suas teorizações: ela não é do lugar das certezas e nos convoca a discussões permanentes sobre “como se forma um analista”.

Atualmente, algumas correntes da Psicanálise tem pensado a formação do analista por outras vias, a partir da teorização lacaniana, apontando para a articulação da clínica, escrita e da transmissão. Como possibilidade de aprofundamento dessa outra proposta de formação aponto a leitura do recém lançado livro "O psicanalista: na instituição, na clínica, no laço social, na arte - volume 2” organizado pela Michele Roman Faria.

As reflexões me conduzem a pensar que a escuta para a qual o analista se prepara é a escuta da singularidade do sujeito e por não se submeter a critérios regulamentadores (como diplomas, conselhos ou registros de classe) não implica significar que não haja rigor em sua prática. Há rigor no processo de formação do analista, atendendo ao compromisso ético com a palavra a ser trabalhada em associação livre e ao tripé da formação, assim como no compromisso de que esta formação seja permanente, não podendo esta estar dissociada dos processos socioculturais aos quais o analista está submetido.

Pensar a formação do analista a partir da ética da Psicanálise é assumir um compromisso com o “não-saber” como possibilidade de se produzir um saber, dando lugar à subjetividade e emergência do saber inconsciente. Novamente a formação do analista assume seu papel subversivo transitando nos discursos* enquanto transmissão e efeitos de formação.

Reflito também que o desafio de escrever e a proposta de transmitir a Psicanálise também fazem efeitos de formação. Se autorizar falar em nome próprio, criando sua própria articulação significante e a implicação com os efeitos que a palavra produz não teria um viés analítico?

Por fim, noto a importância de todo esse percurso, sobretudo ao destaque dado por Freud e Lacan à análise pessoal na formação. É na análise pessoal, no um a um que há transmissão da Psicanálise e nessa experiência singular se vê a possibilidade de produção de um psicanalista.

*Nota: articulação trazida por Lacan no Seminário 17 “O avesso da Psicanálise”, onde este nos apresenta as formas de laço social entre os sujeitos a partir da definição de quatro discursos: do mestre, universitário, da histérica e do analista. Os laços sociais são construídos e estruturados pela linguagem e, em Lacan, são articulados enquanto discursos. Lacan nesse seminário também nos convida pensar a experiência analítica como experiência de discurso.

Referências:

ALBERTI, S.; LOPES, A.; LANNES, E.; ROCHA, E.; AMENDOEIRA, W. (org). Ofício do psicanalista: formação vs. Regulamentação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

FREUD, S. (1919). Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades? (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 14, 1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

_________ (1926). A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 17, 1926-1929). São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

_________ (1937). Análise terminável e interminável. (Sigmund Freud Obras Completas, Paulo César de Souza, Trad., vol. 19, 1937-1939). São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

JORGE, M. A. C. (org). Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006.

LACAN, J. (1967) Proposição de 9 de julho de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2003.

Saúde mental e trabalho

Por Mariana Anconi

Fui convidada a falar neste mês de Novembro sobre saúde mental e trabalho em um podcast da área de tecnologia (ZOFE - click aqui). Discutimos sobre alguns aspectos relacionados ao sofrimento psíquico, mal-estar e as demandas no mercado de trabalho. 

Um tópico em específico ganhou destaque: a síndrome do impostor. A princípio, não é um diagnóstico reconhecido pelo DSM (1), mas que está muito presente na fala de trabalhadores. O impostor, é um significante que circula muito entre profissionais da tecnologia. Descobri inclusive que existe um livro famoso da área de TI que tem este significante no título. 

A sensação de ser um impostor aparece na presença de uma angústia, associado a ideia de inferioridade em relação aos colegas de trabalho, de não pertencimento a determinado grupo. A pessoa não se reconhece em seus próprios méritos, se sente um impostor de suas próprias ideias. 

Uma cena que me ocorre sempre que surge este tema se refere a alguém em frente ao espelho que, ao ver sua própria imagem refletida, vê outra versão sua. É como um duplo, que traz a dúvida, confusão e horror sobre si mesmo. Este sujeito em frente ao espelho pensa: esse outro, que também sou eu, me coloca em risco, uma vez que, como impostor, pode ser descoberto a qualquer momento. É a ideia de que podemos ser traídos por nós mesmos. O homem não é senhor de si, ou “ o eu não é senhor de sua própria casa” como formulou Freud em 1917.

Nesta condição de impostor, mesmo que muitas pessoas se identifiquem, afetos e sentimentos podem estar envolvidos de diferentes formas em cada pessoa. Inclusive, este poder ser pensado como mais uma forma de falar de um mal-estar que aparece principalmente relacionado ao trabalho.

Durante a conversa no podcast surgiu a questão sobre como “ter" saúde mental no trabalho. Antes de tentar formular uma resposta, foi importante retornar a uma questão inicial: O que é saúde mental? 

Não é uma pergunta de um único caminho. É necessário optar por um discurso, um saber, para pensar sobre o tema. Além disso, esse saber, de preferência, tem que abrir o diálogo, pois ainda há uma nuvem cinza que paira sobre estas duas palavras (saúde mental), como um tabu,  relacionado ainda a crenças que julgam moralmente aqueles acometidos por algum sintoma ou psicopatologia. Isso faz calar, silenciar o sujeito. 

Quando o assunto é saúde mental, para a psicanálise o sofrimento é trabalhado no um a um. Ele é entendido como uma resposta da pessoa ao que está difícil de lidar,  ou ainda, ao impossível. Os diagnósticos dos manuais podem ser pensados como tentativas de se nomear um mal-estar que habita o sujeito. 

Freud (1930) fala do mal-estar como o impasse do sujeito, ou seja, sua impossível adequação ao ideal de universalidade que lhe é imposto pelo Outro. É preciso que ele (o paciente) fale sobre este diagnóstico, ou esta nomeação, e que possa construir um saber próprio a respeito.

Além disso, que possa colocar em suas palavras sobre o que se queixa. Há uma aposta ética do analista para que comece pelo “sinto mal” e faça um movimento lógico para o sintoma. Quinet (1991, p. 20-21) afirma: “ É preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo.” 

"Ter" ou "não ter" saúde mental não é uma questão da psicanálise. O que a práxis psicanalítica aponta tem a ver com o sofrimento e a impossibilidade de se ter uma vida mais "leve". Freud fala de saúde mental de um jeito que parece simples e que tenta responder a menos ideais: saúde mental é ter a capacidade de amar e trabalhar. Se você consegue realizar ambas tarefas, está num bom caminho.

A psicanálise não se propõe a curar o sujeito, a noção de cura passa pelo o que cada um faz com seu sintoma, e a que ele (o sintoma) está respondendo. Entende-se aqui por sintoma como uma formação do inconsciente, também como resposta do sujeito aos discursos que circulam na sociedade.

No trabalho, os discursos circulam e estabelecem demandas, seja em uma empresa de TI, um grande banco, escritórios de advocacia, profissionais da saúde, autônomo, trabalho informal, subempregos, etc. 

Existem patologias que estão associadas especificamente ao campo do trabalho, como a  síndrome do impostor. O que de início já chama atenção, pois se trata de um recorte do sofrimento em um único aspecto da vida.

A partir da clínica, no que concerne ao mal-estar relacionado ao trabalho ou não, é possível recolher algumas falas que apontam para uma posição subjetiva de jamais estar em condições de satisfazer o que se espera do outro. Apontar isso e trabalhar com os ideais que o colocam em situação de impotência são possibilidades de direção do tratamento analítico.

Destaco dois aspectos que nos ajudam a pensar os sintomas. Pontuo como fatores internos e externos que podem ser vistos como mesmo lado de uma figura topológica (banda de Moebius).

De um lado temos o discurso que rege no mundo corporativo, das empresas que não deve ser desprezado e afeta trabalhadores. Demandas da empresa que giram em torno de produtividade, números e claro, retorno financeiro que o funcionário oferece a empresa. A pressão para atingir metas, ou apresentar um projeto relevante representam demandas que tem efeitos diversos em cada um. 

No entanto, os discursos reproduzidos no trabalho (como o do capitalista proposto por Lacan - Seminário XVII) produzem sintomas já até bem “aceitos” socialmente, servindo bem à lógica do mercado e das empresas, como a pessoa que se diz workaholic (termo em inglês para "trabalhar em excesso"). Além disso, a diminuição dos direitos trabalhistas, também produz sofrimento, que com um traço perverso dificulta ainda mais a vida do trabalhador.

Por outro lado é importante articular tais demandas, por vezes excessivas, com o que cada um  faz diante disso ou como lida. Assim, destaco aqui três aspectos associados ao sofrimento que merecem atenção na clínica:

  • Ideal: um ideal que vira a única possibilidade de ser bem sucedido, acompanhado do pensamento: se eu não sou o que eu gostaria de ser, eu sou nada. 

  • O lugar que se ocupa na relação com o Outro: o outro pode ser excessivo nas demandas ou ainda, impossível de satisfazer. São acompanhados da ideia: O que estão esperando de mim?; O que acham do meu trabalho?; “Eu não sou tudo isso que pensam que sou”; Lacan no Seminário X fala da angústia produzida quando alguém fica no lugar de objeto de gozo do outro;

  • A repetição e sofrimento: Repetimos no significante aquilo que gera sofrimento. É preciso que alguém (um analista) escute a repetição e opere como causa do desejo.

Com todos os aspectos levados em conta, considerando o mal estar e a forma como cada um lida referente a posição subjetiva frente as demandas sociais e no trabalho, a saúde mental pode (e deve) ser pensada para além da ideia de ausência de patologia. Canguilhem em O normal e o patológico (1943/1995) nos adverte que o patológico não possui uma existência em si, podendo apenas ser concebido numa relação, num contexto social.

Quando procurar ajuda? Quando houver sofrimento. 

Notas

(1) DSM-5 - Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais» de American Psychiatric Association.

Referências 

CANGUILHEM,G. (1943/1995) O normal e o patológico, trad. Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas e Luiz Octavio Ferreira Barreto Leite. – 4a. Ed.- Rio de Janeiro, Forense Universitária.

FREUD, S. (1917) Conferências introdutórias sobre psicanálise. Obras completas, ESB, v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.

________. (1930) ”Mal estar na civilização", Obras completas, ESB, v. XXI, p.65-148.   

LACAN, J. - Seminário X - A Angústia (1962-63), documento de circulação interna do Centro de Estudos Freudianos de Recife.

________. (1991[1969-1970]). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

QUINET, A. (1991) As 4+1 condições da análise. 13. reimpr. Rio de Janeiro: Zahar.

 

A loucura e seus destinos

Por Anastácia David

 

A loucura, palavra feminina, foi derramada entre as mulheres como lava da misoginia. “Por que gritam essas mulheres?”, “Do que se queixam?”, “Por que paralisam?”, perguntou-se a medicina para responder aos fenômenos da histeria, panis normalis dosim repetatur¹ diziam. Àqueles, homens e mulheres, que alucinavam e que contavam de experiências que não condiziam com a realidade de todos, eram encarcerados e suas palavras esvaziadas de sentido, estavam no registro da desrazão e mereciam o exílio, o asilo, a inanição ou precisavam alcançar uma fé. Em resumo, falamos da história da loucura² na modernidade.

Nesse longo período entre os séculos XVII e XIX ressaltam-se nesse texto dois pontos fundamentais: a visão de mundo cartesiana e o surgimento dos grandes manicômios. No projeto do cogito a loucura trazia notícia de algo insuportável, a égide da razão mostrava a loucura como um erro que precisava ser reparado a qualquer preço. A ela era oferecido o manicômio; grandes instituições, a princípio eclesiásticas e posteriormente hospitalares, que se misturava toda sorte de pessoas que sofriam mazelas da mente e sociais. Essas pessoas deixavam sua autenticidade e experiência histórica para ser objeto de investigação, ou ainda, da administração totalitária da instituição. Desumanização é a palavra. 

Os grandes hospitais gerais e manicômios foram contemporâneos de Sigmund Freud que iniciou sua clínica com os estudos sobre histeria no final do século XIX e início do século XX. Freud funda sua teoria da escuta das mulheres que sofriam de maneira trágica e dolorosa dos sintomas da mente, sintomas histéricos. Articula a “cura” a partir da função dialética da fala e da escuta analítica.

Freud apresenta que a concepção de normal e patológico é uma construção social e opõe-se, com essa proposta, às ideias dos alienistas da época. Retoma a tragédia contida na loucura e a coloca no campo da psicopatologia, fundamenta a necessidade de tratamento médico, analítico e, sobretudo, do olhar com humanidade para a pessoa que sofre intensamente. Elabora os conceitos de realidade e funcionamento psíquico. Os momentos de crise tinham, agora, o sentido de tentativa de cura.  

Para Jacques Lacan, a forma como o sujeito é estruturado de maneira a ligar-se ao laço social, estrutura o funcionamento da sua teia simbólica; o campo da linguagem para o sujeito inscreve a experiência única de sua existência, que pode ser a loucura. Existe potencia criativa no discurso do sujeito que sofre, é vivenciada na linguagem e cabe ao analista com o seu trabalho ser sensível a uma logica que é do outro e não tem a ver com trazer de volta a razão, mas acompanhar e deixar advir um bem dizer.  

No Brasil, concomitante ao movimento de luta pelas “diretas já’ e redemocratização, viveu-se o movimento de luta anti-manicomial por volta do ano de 1970. A luta foi encabeçada por profissionais da saúde, pessoas que necessitavam de terapêutica adequada para o seu sofrimento, seus familiares e população. Notaram que a ausência da escuta e da rede de apoio social, evidenciava grande desamparo da rede pública de saúde. O sofrimento psíquico intenso, disruptivo, amedrontador daquele que vive com a loucura e seus familiares não possuíam espaço para o cuidado adequado naquele tempo. 

A ideia é romper com a clausura e amparar o sujeito dentro da sua rede, do seu território. Constroem-se os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ligados à legislação do Sistema Único de Saúde e Saúde Mental. Ainda hoje o processo de reforma está em andamento; a revolução iniciou uma transformação sobre a forma como é vista a loucura e quanto ao entendimento do que se torna importante no cuidado em saúde mental. Têm-se ganhos graduais e processuais que envolvem uma compreensão cultural ampla. É preciso que os governos acompanhem as discussões sobre saúde mental para que seja possível uma sociedade sem manicômios, com opções de centros de saúde mental, acesso a medicações, terapêuticas e, principalmente, escuta.

As formas de sofrer da humanidade apuram-se e atualizam-se ao longo do tempo, seja pela experiência do sujeito com o laço social seja pelas contingências históricas vividas. Vemos o crescimento de novos sintomas como cortes no corpo, medicalização da vida, ansiedades relacionadas às redes sociais dentre outros sintomas.  Percebe-se que a loucura refina suas maneiras e exige refinamento de escuta e rede de acolhimento à dor emocional. A sociedade muda e mudam-se também as formas de sofrer; atualizam-se as formas de representação da dor humana. 

Qual destino daremos para a loucura nos nossos tempos? 

Continuemos na busca por assegurar um lugar de escuta para a loucura. 

 

 

¹ FREUD. Sigmund. A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. ESB Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

²   FOUCAULT. Michel. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1977.

 

Estrangeiros em Nova York

Por Mariana Anconi

 

Desde que mudei para Nova York sou atravessada por palavras, significantes e expressões deste território que, são transmitidas nas falas, nos discursos, nos gestos, nos atos, na política da cidade, nos museus e exibições, nos bares, na mídia, no papelão em que escrevem os homeless (sem teto), nos delírios e no "sonho americano".

Aquele que vem de fora pode apontar mais facilmente as loucuras e tentativas de se negar os furos em uma sociedade. Estar no lugar do estrangeiro significa ser atravessado pelo estranho que convoca ao novo, mas ao mesmo tempo, convoca ao movimento de retorno "as raízes", a "essência" e ao que uma vez já foi lar. Um retorno ao conhecido, ao nomeável, ao familiar. 

A cada encontro ou evento de Psicanálise que frequento retorno à época em que Freud foi estrangeiro nos EUA. A viagem que fez ao Novo Mundo começou em Nova York depois se estendeu por outras cidades. Como qualquer turista seguiu um roteiro básico com passeio ao Centra Park, almoço no terraço do Hammerstein, procurou pelas obras gregas no Museu Metropolitano (MET) e, pela primeira vez, assistiu a um filme no cinema. Porém, seu objetivo principal foi dissipar a peste por aqui. 

Na biografia escrita por Jones (1979) vemos um Freud incerto quanto ao que esperar dessa viagem. Depois de subir ao palanque na Clark University disse estar sonhando acordado ao ver o público presente para ouvir suas ideias. Não é à toa o uso da palavra "peste" para nomear o caráter subversivo desta que seria mais que um sistema de pensamento. Lá proferiu as famosas cinco conferências intituladas como "Cinco lições em Psicanálise " (1909).

Esta viagem teve importância com um caráter "oficial" do reconhecimento internacional da Psicanálise. Naquela época, as distâncias eram concretas e, ter sua obra divulgada em outro continente, avançando mares e oceanos era algo muito significativo. No artigo de Myriam Chinalli (2009), encontrei uma citação que corrobora a importância para Freud desse reconhecimento na América e, após esta viagem, disse a Ferenczi "minha teoria não se trata de um delírio". 

Recentemente vivi a experiência de um entusiasmo, como se fosse a chegada de mais uma peste nos EUA: a arte de Tarsila do Amaral. No início do ano, os EUA receberam a primeira exposição exclusiva da artista, no MoMa. Pensei em Tarsila como estrangeira aqui em Nova York e na forma como seria recebida pelos críticos e curiosos. 

Visitei a exposição buscando matar a saudade das cores e dos traços. Uma brasilidade transmitida pelo olhar de uma mulher que disse: "quero ser pintora do meu país". Frase enigmática. Um desejo que se concretizaria a posteriori com o reconhecimento internacional e dos brasileiros. 

Para ser pintora de sua terra buscou beber de fontes artísticas na França. O movimento de sair de um território, convoca a um distanciamento, ao olhar crítico e, muitas vezes, a valorização do que é singular de um lugar. O valor de uma obra está no que ela transmite de uma cultura através de um olhar único e subjetivo. Assim, Tarsila o fez.

Andando pelo MoMa, pensei o que será que um quadro como A negra (1923) pode dizer ou despertar em alguém não-brasileiro? Ou ainda, a obra Operários (1933)? Ou A cuca (1924)? Ou Abaporu (1928), eterna estrangeira no museu Malba na Argentina. O que os argentinos dizem sobre Abaporu?

Além dos quadros de Tarsila, a exposição contou com os originais do Manifesto Antropofágico (1928) elaborado por seu marido, o poeta Oswald de Andrade que foi inspirado pela obra Abaporu. Assim como Tarsila inspirou o Manifesto de Oswald, várias mulheres inspiraram Freud na invenção da psicanálise. Passei os olhos pelo Manifesto e fui surpreendida por uma referência literal a Freud. Os antropofagistas beberam na fonte de Totem e Tabu (1913).

Freud e Tarsila estrangeiros em Nova York. 

Foi e é significativo o alcance destes em diversos países, culturas e línguas. Um fato em comum aos dois: o escasso reconhecimento do valor de suas produções em seus países de origem. No caso de Tarsila, houve demora por parte dos brasileiros em reconhecer como arte seus trabalhos. E Freud, em Viena, foi "a única parte do chamado mundo civilizado que não o reconheceu" (Chinalli, 2009, p.6)

Tarsila deixou o legado da valorização da arte como produção subjetiva atravessada por uma cultura, por significantes, sonhos e lutas de um povo. E de alguma forma, transmitiu isso na exposição em Nova York, em um cultura com trajetória diferente.

Freud em sua visita aos EUA nos deixou um legado para além das "Cinco lições": a de buscar saber sobre o estrangeiro em nós. Esse estranho familiar que põe em cheque as certezas. Esse outro que nos habita.

Não é preciso estar em outro país para ser estrangeiro. 

 

CHINALLI, M. A chegada da peste: cem anos da viagem de Freud aos EUA (1909-2009)

 

Memória do trauma

Por Carolina Escobar

Quando se chega ao Museo de la Memoria y los Derechos Humanos em Santiago, no Chile, ao lado da entrada principal há um painel feito de pedra com a seguinte inscrição: ¿Qué passa si olvido? (O que acontece se esqueço?).

Me lembro de pensar que provocativo um museu nomeado ‘da memória’ se apresentar com esta pergunta e passei pela porta da entrada assim, despretenciosa, sem imaginar a marca que essa experiência deixaria em mim.

Esse museu conta a história da mais longa e brutal ditadura da América Latina e podemos entrar na realidade chilena quando comandada por Pinochet. Destroços, cartas,  vídeos, áudios, testemunhos anunciavam a violência e a desubjetivação em sua forma mais cruel. Sala após sala, o horror.

A reação dos visitantes não passou desapercebido: interrupções da visita, choro, gargalhadas, gritos surpresos, abraços, toque humano. Me lembro de ouvir soluços altos em uma sala mais adiante e me perguntar se fazia parte de algum vídeo do recorrido do museu. Não fazia; bom, fazia e não fazia; afinal, os afetos e reações ao que estava sendo narrado ali também compunham a memória daquele acontecimento.

Apesar de acompanhada por náuseas e uma dor de cabeça insistente saí do museu com a forte sensação de ter sido transformada por aquela experiência. De volta a São Paulo, busco por textos sobre memoriais, assim como sobre a produção de memória cultural e histórica e chego em estudos psicanalíticos sobre produções testemunhais. A clínica do testemunho possibilita voz que àqueles que foram vítimas da violência provocada pelo Estado, quando este, por dever, teria que protegê-los.

Sem os testemunhos dos torturados, dos sobreviventes do holocausto, da comissão da verdade, estuprados, moradores de rua, pessoas escravizadas, dos imigrantese tantos outros que sofreram todos os tipos de violência; a humanidade perderia a dimensão das catástrofes políticas que quando não esvaziam a condição humana, a colocam em suspensão.

Nestes contextos, a escuta analítica está a serviço da produção de uma fala sobre o trauma e de (re)instaurar o direito à voz a quem lhe foi retirado.

Mas, de que forma? Por serem destituídas de um lugar de direitos e reconhecimento social, uma fala produzida por estas pessoas pode não ser ouvida ou entendida como linguagem. A aposta da clínica do testemunho é que será pelo intermédio da escuta analítica que uma fala pode ser transformada em transmissão, endereçamento, narrativa e, com isso, promover a restauração da dimensão humana àqueles que, pela violência do Estado, se encontram objetalizados e desubjetivados.

Ainda há muito o que ser compreendido sobre o trauma, sobre a própria clinica do testemunho, sobre a cultura como transmissão e sobre os efeitos desta escuta - tanto para quem é escutado; quanto para as gerações posteriores que tem acesso à produção testemunhal (memoriais, comissões da verdade, entrevistas, documentários, etc) - no entanto, desde já acredito ser possível dizer que ao promover condições para o (re)ingresso na linguagem, um psicanalista faz política.

Psicanálise do povo: sobre a formação de um analista negro

Por Anastácia David

 

Um dos temas discutidos sobre a questão do negro no Brasil apresenta a temática da descolonização do conhecimento como foco. Fala-se sobre a circulação do saber como estratégia de construção e reformulação social, tendo em vista a existência da desigualdade, sobretudo de raças, como papel de estruturação dos grupos sociais na pátria Brasil. 

Sob uma perspectiva foucaultiana¹, o dispositivo de domínio do saber é utilizado com equivalência em relação ao poder. Quem tem acesso e quem transita pelos lugares de saber, estabelece relações de domínio com aqueles que possuem sua ascendência ao saber barrada em sua trajetória. Quando se conversa sobre descolonização do saber, aborda-se a questão do acesso ao ensino de qualidade na educação de base (ensino fundamental e médio) e acesso as universidades públicas e privadas pela população de poder aquisitivo baixo majoritariamente negra. O que representa dizer que, quando olhamos para a questão do negro no Brasil estamos cuidando da questão do povo; da base da pirâmide de classes.

 Aproximar essas camadas da população à aquisição do conhecimento é ampliar e agregar a rede de construção de saberes, é permitir letramento à comunidade, é tornar pífio o dispositivo de opressão que o saber pode tornar-se. É distribuir o “lugar de fala”, como denuncia a socióloga Djamila Ribeiro².  O acesso à educação é estratégia de abalo às estruturas sociais existentes, e decadentes, que resultam em aumento da pobreza e aumento do sofrimento. Essa exclusão, na experiência de escuta de pessoas negras em consultório de psicanálise, é sentida como diferenciação e abismo social, é vivida como mal-estar e reflete em sofrimento psíquico intenso. Reedita no psiquismo a ancestralidade dos tempos de escravidão.

Nessa medida, surge aqui o pensamento sobre a psicanálise descolonizada. E porque não dizer, “enegrecida” uma vez que o avanço e a notícia de vanguarda trazida por ela também diz respeito ao sujeito negro. Não desde a origem desse saber, pois nasce no centro burguês e “embranquecido” no século XX - com a publicação da obra Interpretação do Sonhos (1900) -  , mas logo adiante na sua história, quando rompeu com as barreiras da cartografia e Sigmund Freud começou a estudar e construir produções teóricas que envolveram o surgimento das ciências dos povos tais como a Antropologia. Os temas sociais e culturais foram peça chave para a escrita do texto “Totem e Tabu” (1913), que inaugurou a escrita dos textos sociais e antropológicos freudianos. Esses textos oferecem faceta rica para a escuta do povo negro. E não só.  

Há na psicanálise aporte teórico do saber sobre as massas. Existe no seu seio a construção de conhecimento sobre o homem marcado pelo social. Quando se fala sobre sujeito, para a psicanálise, estão intrínsecos ao conceito os seus enodamentos com o laço social - conceito criado por Jacques Lacan a partir de Freud. Com a linguagem, o sujeito é marcado racialmente e fala a partir de um lugar.

Ao tratar da psicanálise na atualidade a historiadora e psicanalista Elizabeth Roudinesco no texto Retraimento individual e Mal-estar coletivo (1989) ³ diz: “a massificação do movimento psicanalítico é o produto de uma dupla revolução [...] ligada a democratização da instituição escolar universitária, permitindo que outras camadas da população acendessem ao saber psicanalítico e [...] ligada à história específica das instituições freudianas. ” (p.45). Essa última é referência às escolas de formação em psicanálise. E a autora continua dizendo que para a psicanálise existir é preciso “um ensino independente das demais instituições (médicas, universitárias, estatais, etc.), uma liberdade de fala e associação, e um reconhecimento “consciente” do inconsciente” (p. 46). É preciso um Estado de direito como afirma a historiadora. 

Ainda hoje no Brasil os negros têm dificuldade de acesso a esse saber seja na procura por tratamento seja na sua formação como analista negro. Apesar de Roudinesco defender que há muito a psicanálise deixou seu berço elitista, quando partimos para os grupos de analistas aqui no Brasil ainda existe um abismo a transpor. É preciso reconhecer o percurso dos analistas negros dentro das instituições de formação, é preciso abrir canais de escuta e abertura para a enunciação da fala negra. Do lado dos negros resistência e do lado dos brancos abertura para a escuta.

Se pegarmos a experiência da primeira mulher psicanalista no Brasil Virgínia Leone Bicudo (1910- 2003), negra e neta de escravos, notamos os impasses e muros que se apresentaram à sua formação nos anos 70. Com episódios de não citação do seu trabalho, episódios de esquecimento dos seus méritos e negação dos seus traços identitários. Em 1955, Virgínia participou de projeto intitulado Unesco-Anhembi que desconstruiu a tese do Brasil como um País de democracia racial; o seu trabalho aparece como apêndice da pesquisa e em segunda edição não é citado apesar de ser fundamental à compreensão do mito da democracia racial.

Virgínia Bicudo viveu os desafios da luta de gênero, pois mulheres não frequentavam os meios analíticos e do “preconceito de cor”, como a mesma se referia em relação ao racismo.  Seu trabalho “A incidência da realidade social no trabalho analítico” (1972) é referência nos estudos sobre psicanálise e questões étnico-raciais. 

Existe grande diferença entre saber enquanto matéria e o saber sobre o inconsciente. Jacques Lacan em 1964 no ato de formação da “Escola Freudiana de Paris” defende uma psicanálise ao alcance daqueles que a partir do Ato de envolver-se com o ensino proposto por Sigmund Freud são convocados ao trabalho analítico, no sentido da transmissão e do desejo de saber. Lacan (1964) afirma: “Desta fundação podemos destacar, antes de mais nada, a questão de sua relação com o ensino, que não deixa sem garantia a decisão do seu ato” (p. 242).

Existe uma relação entre o querer saber e o desejo do analista, como nos diz o psicanalista Marco Antônio Coutinho Jorge no texto O desejo de saber como laço entre analista: um comentário sobre a “nota italiana”³ diz: “o surgimento de um analista estaria intrinsecamente ligado ao despertar desse desejo de saber” (p.249). E, para Lacan, outro ponto chave para o percurso do analista é o laço entre os analista, por isso pensa seu ensino também articulado ao grupo. Envolvidos pela transferência de trabalho

A formação do analista passa pelo reconhecimento do grupo de um lugar de desejo. Um lugar de fala. E sobretudo um lugar de escuta.

 

¹ Michel Foucault (1926 – 1984) teórico da filosofia, história e psicologia. 

²  Djamila Ribeiro, O que é lugar de fala?, Belo Horizonte, Letramento, 2017

³ Marco Antônio Coutinho Jorge [organização], Lacan e a formação do psicanalista, Rio de Janeiro, Contra Capa Livraria, 2006

LACAN, J. Ato de fundação. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 

 

Quando o analista interrompe o tratamento

 Por Mariana Anconi

Toda análise tem um fim. Pode ser o tempo de um 'fim de análise' ou o tempo de uma interrupção (definitiva ou não). As situações de interrupção estão sujeitas a ocorrer dos dois lados (analista e analisante).

Do lado do analisante (paciente) a situação de uma interrupção merece uma atenção  por parte do analista, pois entende-se como efeito de um conceito chamado 'resistência'. Lacan já apontava que é uma resistência à escuta, portanto, está do lado do analista. Essa é uma advertência importante que muda os rumos sobre o manejo na clínica entre os psicanalistas.

Para além da resistência, os atendimentos podem ser interrompidos por outros motivos e questões que atravessam os pacientes, como contingências da vida (viagens, morte, impossibilidade de pagar o tratamento, etc) e, destaco aqui, o 'estilo do analista', que interfere para que a transferência opere no tratamento (condição crucial para que os manejos produzam efeitos).

E quando o analista interrompe a análise de seu paciente?

Podemos pensar em inúmeras situações para que uma análise seja interrompida: um analista que decide se aposentar e não mais atender no consultório; Um analista que resolve tirar um ano sabático; Um analista que muda de país ou cidade; Um analista que adoece e precisa se afastar por um tempo; Um analista que morre.

De todos os casos, a morte seria a única contingência em que não haveria um "tempo 2" para que se pudesse manejar os efeitos disso na transferência. Para as demais situações, quando necessária a interrupção, o analista pode manejar os efeitos dela em um segundo tempo, efeitos singulares que, inclusive, podem atravessar os sintomas dos pacientes, como a sensação para alguns de que ele desaparece (morre) ou abandona. Porém, nessss casos ainda existe a possibilidade de endereçar algo ao analista quando, por exemplo, estiver em situações de angústia, mesmo que seja através do uso de tecnologias (telefone, skype, facetime, etc).

Um dos efeitos interessantes para alguns analisantes é o da constatação de que seu analista tem uma vida para além daquele fragmento de tempo em que se encontram no consultório. Isso não é por acaso, afinal de contas, no decorrer de uma análise,  o analista opera uma função, como agente causa do desejo (a) e não de sujeito barrado ($). Portanto, quando as contingências da vida aparecem do lado do analista, além de serem uma novidade, isso não é sem efeitos.

Como cada analista faz a interrupção do tratamento é particular ao estilo de cada um, mas sempre pautado na ética do não desamparo na angústia. Do lado do analista também há efeitos quanto a interrupção de seus atendimentos, por exemplo, ao mudar de cidade/país.

Quando um analista se despede não é das pessoas (seus pacientes) exatamente.

É e não é.

É, porque a cada sessão o analista marcou uma presença/ausência com o corpo. E não é, porque se trata de um lugar que ocupa para operar um discurso (analítico), uma oferta que fez àquelas pessoas: sua escuta. Portanto, ele não se despede das histórias, nem das frases enigmáticas, que ouviu. Tudo isso se transforma em outra coisa, que não é da ordem do conhecimento empírico nem é cumulativo.

A clínica só acontece quando o analista pode sustentar uma aposta (que não é às cegas) inerente à escuta e, que coloca a todo tempo, o seu próprio desejo de analista em questão. Sustentar isso é efeito desse desejo e não causa.

Analisantes começam e terminam suas análises. Esse não é um caminho linear. Há voltas, labirintos, buracos e lacunas. Como cada um atravessa esse caminho é singular. Não há manual que represente o mal estar humano.

A clínica tem um fator da transitoriedade (com ou sem interrupções) que não a faz perder seu valor, justamente por produzir marcas no sujeito a partir de cortes no tempo. As marcas; estas sim, podem atravessar o tempo.

 

 

Trecho do texto 'Sobre a transitoriedade' de Freud (1915):

O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. (...) Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

 

O que fazer com o sintoma?

Por Carolina Escobar

A aparição de um sintoma é, na maior parte das vezes, o que impulsiona a busca por um analista. Sintomas no sono, nas relações, no corpo, na fala; algo claudica, não se encontra explicação; porém é capaz de tirar a vida dos trilhos.

Muitos relatam aos seus analistas estarem intrigados com o fato de que, até o momento de suas vidas, aquele mal estar nunca havia acontecido antes. Não a toa ser tão comum a vontade de eliminá-lo, já que estamos falando de um mal estar que, em determinados níveis, pode atrapalhar - e até mesmo impedir - que as coisas mais rotineiras sejam feitas. 

Nesse exato momento, aparece em meus pensamentos muitas falas que trazem esta questão à tona: “não tenho me reconhecido no que me tem acontecido, de repente sinto uma vontade de chorar que não consigo controlar! Chego a ter que parar o que estou fazendo, ir embora do trabalho...só queria que isso parasse!”, ou  “procurei por esse atendimento a pedido de meu médico, pois essas dores de barriga horríveis me fazem passar mal todos os dias. Ele me afastou do trabalho, mas temo que essa licença médica me prejudique. Preciso de ajuda!”; e até mesmo “estou sem conseguir dormir há uma semana! O que está acontecendo comigo?”.

São relatos angustiados e carregados de interrogações. Por que procurar um analista nestas situações? Desde os momentos inaugurais da construção de seu pensamento, Sigmund Freud já apontava para a ideia de que aquilo que nos acomete poderia ser efeito de um processo Inconsciente. E, partindo deste pressuposto, propõe um método com procedimentos característicos que poderia ser uma proposta de tratamento para estes sintomas. 

Para a psicanálise, os sintomas podem ser entendidos como enigmas; algo curioso, muitas vezes ambíguo e que parece incompreensível; mas que, ainda assim, comunicam algo da particularidade daquele sujeito. 

Dias atrás, lendo o seminário sobre ‘A transferência’ (2010) de Jacques Lacan, me deparei com uma passagem que explicita essa questão:  “(...) o homem é marcado, é perturbado por tudo aquilo a que se chama sintoma – na medida em que o sintoma é aquilo que o liga aos seus desejos” (p.331). 

Trabalhar com o sintoma é complexo vide esta contradição contida em sua formulação: o mesmo ponto que quero eliminar por causar mal-estar, diz respeito ao que me é mais íntimo.  

Como lidar com ele?

Dar ouvidos a um sintoma e, assim, localizar seu caráter de querer dizer alguma coisa, oferece a abertura para que cada sujeito possa (re)conhecer o que ele conta de sua particularidade, visando, então, a extração do que há de singular em cada sujeito – dimensão ética do tratamento psicanalítico.

 A aposta contida no ato de escutar do analista é que isto poderia produzir um novo posicionamento daquele sujeito no que diz respeito à sua vida e quando em relação com outras pessoas. Uma nova posição diante das coisas – e do próprio sintoma – gera efeitos que podem ser recolhidos não só pela pessoa que o vivência, como por quem a rodeia.

Por esta ótica, é possível fazer a leitura de que a repercussão do tratamento psicanalítico poderiam atingir tanto o mal estar localizado no âmbito dos romances familiares (particular); quanto aquele que se faz presente no laço social.

    Lembro- me de uma afirmação de Dominique Fingermann (2011) que dá à escuta do sintoma como insígnia do mal-estar um lugar importantíssimo para aquilo que caracteriza o fazer de um psicanalista; já que é o que oferece a abertura para produzir o incurável – o saber fazer com o sintoma.  

Nela, Dominique aponta que, dessa forma, seria possível “(...) devolver ao sintoma seu alcance político, seu efeito revolucionário” (p.93). Revolucionário pois, ao balançar o que um dia estava nos trilhos, inaugura o espaço para a invenção de um novo trilhamento. Singular, mas não solitário.

 

    

Referências citadas:

Fingermann, Dominique. A política do sintoma na direção da cura. In: Stylus n.22; p.91-99- Rio de Janeiro, maio 2011.

Lacan, Jacques. O seminário, livro 8: A transferência, 1960-1961. -2ed.- Rio de Janeiro: Zahar, 2010.